terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Afinal, somos uma ou duas classes trabalhadoras?

Não sei por que ainda me espanto com os comportamentos individualistas de algumas pessoas. Não entendo como um servidor público federal que passa 3 meses de greve pode está de mi-mi-mi com o aumento do salário mínimo. Ora, o discurso sindicalista é de unicidade, de defesa dos direitos da classe trabalhadora. Mas e os 40 milhões que serão beneficiados não fazem parte da classe trabalhadora? Esse aumento foi uma escolha governamental. 

Não temos q ficar questionando ele. É um ganho para o resto da classe trabalhadora, DA QUAL FAZEMOS PARTE. Temos que ficar felizes com isso. Um aumento de quase 100 reais. Eu fico feliz porque eu tenho muitos parentes que vivem com esse salário. 

O governo escolheu beneficiar esse grupo maior de trabalhadores que vive com o mínimo. Isso é um ponto. Agora é continuar a luta, mas sempre fazendo jus aos belos discursos entoados nos diversos púlpitos sindicais. Assim, precisamos trazer, ao nosso lado, os demais companheiros que compõem a classe trabalhadora. O momento é de comemoração. Tivemos 5%, mas um outro grupo muito maior teve 11%. Estou feliz porque me sinto parte desse outro grupo e porque entendo que precisamos ser coerentes. Isso implica alinhar teoria e prática, como já defendia Paulo Freire. 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE TECNOLOGIA NO PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO IFRN

NOTA


Este texto foi aprovado para apresentação e publicação nos anais do V EPEPE (realizado de 27 a 29 de agosto de 2014 em Garanhuns - PE), mas durante o upload foi enviado o arquivo errado, uma vez que algumas referências bibliográficas às citações indiretas estavam incompletas, em excesso, ausentes e com erros nas datas de publicação

Portanto, o arquivo enviado não correspondia ao texto finalizado. Por este motivo, o ocorrido foi informado ao evento dia 16/08/2014 às 13:53h (10 dias antes da realização do evento), e ao mesmo tempo solicitado, por email (epepe2014fundaj@gmail.com; vepepecomunicacaooral@gmail.com) a substituição do texto enviado anteriormente, pelo correto. A coordenação informou que não era possível fazê-lo. Assim, o trabalho não foi apresentado e solicitado que o mesmo não fosse incluído nos anais. A coordenação atendeu a solicitação e o texto foi retirado dos anais do evento, conforme podemos verificar na área do site do V EPEPE (http://www.epepe.com.br/comunicacoes_Eixo5.html).


domingo, 20 de dezembro de 2015

LINUX EDUCACIONAL: DESAFIOS DA FORMAÇÃO CONTINUADA DOS DOCENTES NAS ESCOLAS PÚBLICAS

André Lucas Nogueira Dantas; João Paulo de Oliveira; Magnolia Maria da Rocha Melo

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio do Grande do Norte – IFRN (Campus Mossoró)
cocsev.mo@ifrn.edu.br

Resumo: As novas tecnologias da informação são fundamentais à construção das relações sociais e socialização do conhecimento. A escola está inserida nesse contexto e os docentes que conduzem a construção dos saberes precisam se apropriar de ferramentas úteis a sua prática. Dentre elas, podemos destacar o Linux Educacional, sistema operacional utilizado nos laboratórios de informática instalados pelo ProInfo Integrado. Entretanto, o uso do Linux Educacional não está consolidado nos espaços escolares, pois ainda apresenta dificuldades na sua utilização, por parte dos docentes, gestores e alunos. Assim, faz-se necessário compreender quais são os fatores que contribuem para que essa ferramenta não tenha se firmado como uma possibilidade pedagógica atrativa aos seus usuários. Dessa forma, esse artigo tem como objetivo discutir os desafios da formação continuada dos professores para o uso do Linux Educacional nas escolas públicas. Para tanto, realizamos pesquisas bibliográficas e consultas aos Censos do INEP e CGI e à legislação específica. Nossos estudos apontaram que, o Linux Educacional possui várias ferramentas integradas que podem facilitar a prática docente no cotidiano do professor. Percebemos que o Estado conseguiu dotar os ambientes escolares de infraestrutura, mas ainda precisa avançar nas políticas de formação continuada. Acerca da legislação vigente, observamos que os instrumentos legais sinalizam para o desenvolvimento de um fluxo contínuo de programas de capacitação.  Dessa forma, podemos afirmar que os desafios enfrentados pelos docentes das escolas públicas podem ser superados, à medida que avançarmos, na oferta de cursos regulares de formação que garantam o domínio das tecnologias disponibilizadas pelo ProInfo.
 
Palavras-Chave: Tecnologias da informação, Linux Educacional, ProInfo.
 
1 INTRODUÇÃO
            A tecnologia é capaz de promover a evolução do saber humano, uma vez que seu uso pode ser bastante dinâmico e didático (GADOTTI, 2000), desencadeando mudanças expressivas no processo ensino-aprendizagem do estudante e promovendo uma aproximação entre as práticas escolares e sociais de mestres e alunos (BARRETO, 2002).
A disseminação do uso de tecnologias como smartphones ou notebooks nos mais diversos ramos da atividade humana, bem como sua integração cada vez mais presente com a educação, evidenciam novas possibilidades de aprimorar o processo de formação acadêmica dos estudantes e da metodologia de ensino dos professores (MORAN, 2015). Essas ferramentas, além de serem capazes de estimular a imaginação dos alunos e torná-los mais engajados, auxiliam notoriamente o trabalho dos educadores. Segundo o sociólogo Giddens (2012, p. 104), “a disseminação da tecnologia da informação expandiu as possibilidades de contatos entre as pessoas ao redor do planeta”. Isso evidencia a facilidade da troca de informações entre os indivíduos e explicita as influências e as implicações das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) na sociedade (VILAÇA, 2014).
Apesar de se entender que a escola é um campo de trabalho no qual a renovação dos métodos de ensino ocorre de forma lenta, o uso expressivo das novas tecnologias e da internet foram capazes de extinguir com essa abstração (MARINHO, 2005), haja vista que surgiu uma necessidade crescente de modernizar a metodologia de ensino nas escolas, tanto para depreender a atenção dos alunos como para acompanhar a modernização.
Com a finalidade de promover o uso da tecnologia como ferramenta de enriquecimento pedagógico no Ensino público Fundamental e Médio foi criado, por meio da Portaria nº 522[1] em 09/04/1997, o Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo). O funcionamento do Programa acontece de forma descentralizada, existindo em cada Estado da Federação uma coordenação local, bem como um Núcleo de Tecnologia Educacional (NTE), equipado com a infraestrutura de informática e comunicação, além de educadores especialistas em hardware e software. A função dos NTE’s é auxiliar as escolas públicas a fazerem uso dos equipamentos de informática implantados pelo Governo Federal. No ano de 2007, por meio do Decreto nº 6.300 de 12/12/2007, o ProInfo foi reformulado e passou a ser denominado de Programa Nacional de Tecnologia Educacional, tendo os seguintes objetivos:
I - promover o uso pedagógico das tecnologias de informação e comunicação nas escolas de educação básica das redes públicas de ensino urbanas e rurais;
II - fomentar a melhoria do processo de ensino e aprendizagem com o uso das tecnologias de informação e comunicação;
III - promover a capacitação dos agentes educacionais envolvidos nas ações do Programa;
IV - contribuir com a inclusão digital por meio da ampliação do acesso a computadores, da conexão à rede mundial de computadores e de outras tecnologias digitais, beneficiando a comunidade escolar e a população próxima às escolas;
V - contribuir para a preparação dos jovens e adultos para o mercado de trabalho por meio do uso das tecnologias de informação e comunicação; e
VI - fomentar a produção nacional de conteúdos digitais educacionais. (BRASIL, 2007, p. 1, grifo nosso)
Nesse contexto, o professor deve assumir uma postura norteadora do processo educativo a partir do uso das tecnologias, visto que sua prática pedagógica em sala de aula assume um papel imprescindível no desenvolvimento intelectual e social do aluno. O educador é, portanto, um mediador do conhecimento e deve adotar os mais diversos recursos para possibilitar métodos ímpares de ensino para os escolares, sempre visando a qualidade e a eficácia na educação (GADOTTI, 2000). Dentre eles, destacamos como possibilidade o uso do Linux Educacional (LE) durante o desenvolvimento de sua prática docente. 
Não obstante, a facilidade de acesso à informação exige um padrão educacional voltado para o desenvolvimento de um conjunto de habilidades, com o intuito de possibilitar aos discentes uma compreensão e reflexão aprofundada da realidade. Portanto, a escola, enquanto instituição social, possui o compromisso de atender satisfatoriamente às exigências da sociedade moderna. Na medida em que estamos presenciando inovações constantes da tecnologia, é de fundamental importância que ocorra uma adequação nos métodos de ensino. Somente assim, a tecnologia se tornará um aliado das instituições de educação, unindo conhecimento e interatividade.
Entretanto, para que isso aconteça é preciso que haja um processo de formação continuada dos agentes educacionais que formam os alunos. Nesse sentido, o objetivo desse artigo consiste em discutir a necessidade da formação continuada dos professores para o uso satisfatório do Linux Educacional nas escolas públicas.
 
2 METODOLOGIA
 
 A metodologia consiste no caminho desenvolvido ao longo do trabalho para que possamos atingir o objetivo proposto. Segundo Demo (1995) há pelo menos quatro gêneros que delineiam uma pesquisa que podem ser utilizados de forma individual ou interconectados: Pesquisa teórica, dedicada a formular quadros de referência, a estudar teorias; Pesquisa metodológica, dedicada a indagar por instrumentos, por caminhos, por modos de se fazer ciência ou a produzir técnicas de tratamento da realidade ou a discutir abordagens teórico-práticas; Pesquisa empírica, dedicada a codificar a face mensurável da realidade social; Pesquisa prática, voltada para intervir na realidade social, chamada pesquisa participante.
Nesse sentido, nossa pesquisa é teórica, pois nos propomos a discutir a necessidade da formação continuada dos professores para o uso satisfatório do Linux Educacional nas escolas, a partir de referências bibliográficas e de relatórios do INEP que fundamentam essa temática.
 
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
 
3.1 LINUX EDUCACIONAL
 
O Linux Educacional é um software livre proveniente de um projeto desenvolvido pelo Governo Federal, cujo objetivo é melhorar o aproveitamento dos ambientes de Informática nas escolas do país. A utilização desse software é capaz de colaborar diretamente para o atendimento dos propósitos do ProInfo, uma vez que ele potencializa o uso das tecnologias da educação, garantindo melhorias no ensino e inserção tecnológica e social dos alunos.
Com o propósito de facilitar o acesso aos conteúdos educacionais, o Ministério da Educação (MEC) disponibilizou um acervo de 3.692 obras do Portal Domínio Público, 545 vídeos da TV Escola, 569 sugestões de aulas do Portal do Professor e uma coleção de conteúdos de Química[2]. Todos estes conteúdos estão presentes na instalação dos computadores entregues pelo ProInfo às escolas públicas. Dessa forma, é possível garantir que as instituições educacionais sem acesso à internet, também possam utilizar uma grande parte desse acervo.
Como já foi exposto, o uso dessa ferramenta é voltado principalmente para ambientes escolares, mas ela pode ser utilizada, normalmente, em computadores pessoais, pois o Linux Educacional é um software livre que pode ser instalado gratuitamente, a partir do download feito pela internet. Um dos pontos positivos de apropriação do LE nas residências é o fato de os alunos terem acesso a uma diversidade de material didático, além de adquirirem ferramentas adequadas para satisfazer suas necessidades acadêmicas rotineiras. No caso dos docentes, é possível a preparação de suas aulas de modo satisfatório e com uma maior dinamicidade, tendo em vista que enriquecerá seu conhecimento e seu trabalho, a partir das diversas mídias de apoio, integradas ao Sistema Operacional Linux.
A versão disponível do Linux Educacional, no ano de 2015, é a 5.0, desenvolvida pelo Centro de Computação Científica e Software Livre (C3SL) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com o apoio de técnicos dos Núcleos de Tecnologia Educacional. Nessa versão houve a implementação de novos aplicativos e recursos de interface, totalmente desenvolvidos com base na experiência dos usuários ao longo dos anos.
Os investimentos feitos pelo Governo Federal, por meio da implantação de projetos como o ProInfo e o Linux Educacional, tem contribuído para que muitas escolas brasileiras sejam equipadas com tecnologias educacionais. Segundo o Censo Escolar da Educação Básica de 2013 (INEP, 2014), das 118.914 escolas públicas de Ensino Fundamental, pouco mais da metade (50,3%) apresentam laboratórios de informática, enquanto no Ensino Médio, 91,5% das 22.346 escolas apresentam ambientes propícios para o ensino da informática.
Considerando as devidas proporções entre o número de alunos e a quantidade de laboratórios, os dados mostram que as escolas públicas de Ensino Fundamental possuem menos laboratórios de informática, mas em contrapartida, as escolas de Ensino Médio apresentam um percentual superior.
Entretanto, é importante garantir infraestrutura para todos os níveis escolares, pois  o uso da tecnologia como ferramenta pedagógica é capaz de contribuir com o processo ensino-aprendizagem em todas as etapas da formação humana. Nesse sentido, Miranda e Camossa (2010) reiteram que o uso das tecnologias no processo ensino-aprendizagem propõe facilitar a procura desses alunos por novos conhecimentos e informações nos ambientes sociais, tornando-se indispensável na atualidade.
 
3.2 FORMAÇÃO DOCENTE PARA USO DAS TECNOLOGIAS EDUCACIONAIS
As tecnologias sempre fizeram parte do desenvolvimento da humanidade e se tornaram tão relevantes que não podemos pensar o mundo atual sem a presença delas. Na educação não pode ser diferente, posto que elas podem contribuir significativamente para a dinâmica do processo ensino-aprendizagem. O Linux Educacional chegou às escolas públicas por meio do ProInfo com esse propósito. Entretanto, Valente (1995, p. 46) ressalta que “(...) a relação entre o fazer e compreender não está restrita ao software mas remete à interação do professor com o aluno que usa um determinado software”. Não se trata de criar condições para o professor simplesmente dominar o computador ou o software, mas, sim, auxiliá-lo a desenvolver conhecimento sobre o próprio conteúdo e sobre como o computador pode ser integrado no desenvolvimento desse conteúdo. (VALENTE, 1999).
Alguns softwares apresentam características que favorecem a atuação docente. Em outros, algumas características não estão presentes e requerem um maior envolvimento do professor para auxiliar o aluno a passar do fazer para o compreender. Mas, em todos eles, sem um professor preparado para desafiar o educando, é muito difícil esperar que o software por si só crie as situações para atingir o nível de compreensão desejado. O domínio das ferramentas tecnológicas é fundamental para que a educação dê o salto de qualidade e deixe de ser meramente baseada na transmissão da informação e na realização de atividades para ser baseada na construção do conhecimento pelo aluno e na compreensão do ele faz. (VALENTE, 1995).
Nesse sentido, percebemos que a prática pedagógica docente, utilizando-se do Linux Educacional, precisa vir acompanhada do domínio técnico do software, pois do contrário o computador perde a sua perspectiva inovadora na educação. Para que isso seja possível, é importante que o professor tenha consciência de que a sua formação é um processo constante e que ele precisa superar os desafios trazidos com os avanços da tecnologia. Além disso, o Estado, como responsável por conduzir as políticas para a educação pública, também precisa garantir os meios que permitam a capacitação contínua dos trabalhadores da educação. 
Segundo estudo realizado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (2013), 96% dos professores afirmam que utilizam recursos digitais para o preparo de aulas. Desse total, 52% informaram ter aprendido a utilizar o computador e a Internet em algum curso específico e apenas 22% desses educadores participaram de algum curso oferecido pelo governo ou secretarias da Educação. Destaca-se ainda que, para 74% dos docentes, a falta de apoio pedagógico dificulta o uso do computador e da Internet para fins pedagógicos. Nesse sentido, percebemos que o Estado precisa ampliar seu alcance, no tocante às políticas de formação continuada para uso das tecnologias educacionais em sala de aula. Para tanto, precisa dispor, inicialmente, de mecanismos legais que assegurem a implementação das políticas de capacitação.
 
3.3 LEGISLAÇÃO
No Brasil, os instrumentos legais que tratam da formação são: a Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB), a Resolução nº 02 de 26/06/97, o Decreto nº 6.755 de 29/01/2009 e a Portaria nº 1.129 de 27/11/2009. A LDB trata da formação docente no Título VI (dos profissionais da Educação - art. 61 a 67). O art. 62 destaca que:
A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nos 5 (cinco) primeiros anos do ensino fundamental, a oferecida em nível médio na modalidade normal.  (Redação dada pela Lei nº 12.796, de 2013)
§ 1º A União, o Distrito Federal, os Estados e os Municípios, em regime de colaboração, deverão promover a formação inicial, a continuada e a capacitação dos profissionais de magistério. (Incluído pela Lei nº 12.056, de 2009). (BRASIL, 1996)
 
A partir do recorte acima, observamos que a legislação estabelece a necessidade de o profissional da educação básica obter uma formação inicial, a nível de licenciatura, como condição básica para atuar como docente na educação básica. A Resolução nº 02 de 26/06/97, dispõe sobre os programas especiais de formação pedagógica de docentes para as disciplinas do currículo do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e da Educação Profissional em nível médio. Segundo a Resolução, o programa de formação deveria ser desenvolvido em, pelo menos, 540 horas, incluindo a parte teórica e prática, esta com duração mínima de 300 horas.
Em 2006 o Parecer CNE/CP nº 5/06, indicou a necessidade de revogação da Resolução nº 2 de 1997 e da sua regulação por novos padrões em conformidade com as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) para Formação de Professores. Entendeu, ainda, ser necessário elevar a carga horária mínima destes programas para 800 horas, reservando, no mínimo, 300 horas para estágio supervisionado e o restante às demais atividades formativas. Com base no estudo realizado, a Comissão, que assina o Parecer CNE/CP nº 5/06, apresentou um Projeto de Resolução contendo normas sobre a matéria e a proposta de revogação (...). Este Projeto, contudo, não foi à aprovação. (MACHADO, p. 698, 2011)
O Decreto nº 6.755 de 29/01/2009, instituiu a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica e disciplinou a atuação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no fomento a programas de formação inicial e continuada. A fim de fortalecer as políticas de capacitação, a Portaria nº 1.129 de 27/11/2009, constituiu a Rede Nacional de Formação Continuada dos Profissionais da Educação Básica e criou o Comitê da Rede. Nesse sentido, podemos constatar que dispomos de instrumentos legais que podem assegurar e possibilitar o desenvolvimento de políticas públicas de formação continuada para os docentes das redes públicas de educação. No tópico seguinte, apresentaremos as principais políticas desenvolvidas pelo Ministério da Educação (MEC) no âmbito da formação docente.
 
3.4 POLÍTICAS DE FORMAÇÃO DOCENTE DO MEC
 
Segundo consta no site oficial do MEC[3] a formação continuada para professores pode ocorrer por meio dos seguintes programas: 1) Formação no Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa; 2) ProInfantil; 3) Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica – Parfor; 4) ProInfo Integrado; 5) e-ProInfo; 6) Pró-Letramento; 7) Gestar II; 8) Rede Nacional de Formação Continuada de Professores.
Dentre os programas de formação continuada oferecidos pelo MEC, destacamos o ProInfo Integrado, programa de formação voltado para o uso didático-pedagógico das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s) no cotidiano escolar, articulado à distribuição dos equipamentos tecnológicos nas escolas e à oferta de conteúdos e recursos multimídia e digitais oferecidos pelo Portal do Professor, pela TV Escola e DVD Escola, pelo Domínio Público e pelo Banco Internacional de Objetos Educacionais. Ele surge como uma possibilidade de superar os desafios enfrentados pelos docentes que utilizam o Linux como ferramenta de implementação da sua prática pedagógica.
Entretanto, sabemos que mesmo diante dessa política, ainda temos inúmeros desafios a serem superados para a consolidação do Linux Educacional como recurso pedagógico. Sabemos que a formação docente é necessária, mas não garante o bom uso de uma ferramenta tecnológica na educação. É fundamental que, aliado a esse processo, o docente se disponha a aprender e a superar os problemas que emergem junto com as novas tecnologias.
Geralmente o educador usa, em seu computador pessoal, o sistema operacional Windows e ao se deparar com o Linux Educacional nas escolas, amplia a resistência ao seu uso. Além disso, à formação continuada para uso das tecnologias, deve-se acrescentar a necessidade de infraestrutura adequada (laboratórios climatizados, internet banda larga), bem como aquisição de equipamentos adequados à prática pedagógica.        
 
4 CONCLUSÃO
 
A existência de laboratórios de informática equipados com o Linux Educacional proporciona uma integração única entre alunos e professores das escolas públicas. Esse software destaca-se por reunir um conjunto de elementos que almejam cumprir com o propósito de apontar alternativas de práticas pedagógicas adaptáveis aos diferentes contextos educacionais.
A abundância de material presente no LE forma um portfólio que possibilita aos professores a utilização dessa tecnologia como suporte para o desenvolvimento de sua prática, agindo como uma ferramenta de ensino auxiliar na construção do conhecimento. Entretanto, apenas a inserção da infraestrutura dos laboratórios nas escolas não é suficiente para alcançar o êxito esperado em torno do uso da tecnologia como recurso didático. A disponibilização de tecnologias educacionais deve vir acompanhada também da capacitação dos respectivos educares, que utilizarão as ferramentas em sala de aula e contribuirão diretamente para a formação dos seus alunos.
O Estado já dispõe de instrumentos legais que podem embasar o desenvolvimento de políticas públicas de formação continuada, com o intuito de capacitar os docentes para uso do Linux Educacional em sala de aula. Conforme apresentamos, os dados do Censo da Educação Básica de 2013 apontaram que, 50,3% das escolas de Ensino Fundamental e 91,5% das escolas de Ensino Médio possuem laboratórios de informática (INEP, 2014), representando um grande avanço. Entretanto, pesquisa realizada, no mesmo ano, pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil - CGI (2013) sinaliza que apenas 22% dos educadores participaram de cursos oferecidos pelo governo ou secretarias da Educação. Esses dados contrastantes apontam a necessidade de implementação de políticas de formação continuada a fim de possibilitar aos educadores a qualificação necessária para uso da infraestrutura disponibilizada nas escolas públicas.
O professor com fluência digital possui maior capacidade de potencializar o aperfeiçoamento do saber humano e se tornar, por conseguinte, um elemento transformador das práticas escolares, possibilitando um acréscimo na qualidade da educação nacional. Apesar dos novos desafios provenientes dos avanços tecnológicos, deve-se entender que todo esse processo passa por uma constante renovação e exige uma dedicação assídua do professor. A preparação desse profissional é imprescindível para atingir o objetivo de tornar a tecnologia uma ferramenta inovadora na educação. O Estado, como entidade máxima da organização humana em nosso país, detém o compromisso de estimular propostas pedagógicas que permitam a qualificação adequada dos docentes.
 
REFERÊNCIAS
 
BARRETO, Raquel Goulart. Tecnologias nas salas de aula. In: LEITE, M.; FILÉ,W. (Org.). Subjetividades, tecnologias e escolas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.
 
BRASIL. Decreto nº 6.300, de 12 de janeiro de 2007. Lei do ProInfo - Dispõe sobre o Programa Nacional de Tecnologia Educacional – ProInfo. Brasília, DF, 12 jan. 2007.
 
________. Decreto nº 6755 de 29/01/2009. Institui a Política Nacional de Formação de Profissionais do Magistério da Educação Básica, disciplina a atuação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior -CAPES no fomento a programas de formação inicial e continuada, e dá outras providências. Brasília, DF, 29 jan. 2009.
 
________. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Censo Escolar da Educação Básica 2013: resumo técnico / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Brasília, MEC: 2014.
________. Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB). Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF, 20 dez. 1996.
 
________. Portaria nº 1.129 de 27/11/2009. Constitui a Rede Nacional de Formação Continuada dos Profissionais da Educação Básica. DOU n.º 228, de 30.11.2009, Seção 1, página 643/644.
 
________. RESOLUÇÃO Nº 2, DE 26 DE JUNHO DE 1997. Dispõe sobre os programas especiais de formação pedagógica de docentes para as disciplinas do currículo do ensino fundamental, do ensino médio e da educação profissional em nível médio. Brasília, DF, 26 jun. 1997.
 
Comitê Gestor de Internet no Brasil (CGI.br). Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras: TIC Educação 2013 [livro eletrônico]. São Paulo: CGI, 2014.
 
DEMO, Pedro. Metodologia científica em Ciências Sociais. 3. Ed. São Paulo: Atlas, 1995.
 
GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. 5ed. São Paulo: Peirópolis, 2000.
 
GIDDENS, A. Sociologia. 6. ed. Porto Alegre: Penso, 2012.
 
MACHADO, Lucília Regina de Souza . O desafio da formação dos professores para a EPT e PROEJA. Revista Educação Sociedade, Campinas, v. 32, n. 116, p. 689-704, jul./set. 2011.
 
MARINHO, Cláudio. O uso das tecnologias digitais na Educação e as implicações para o trabalho docente.  2005. 158 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós - Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Minas  Gerais,  2005.
 
MIRANDA, Raquel Gianolla; CAMOSSA, Juliana Patrezi. O uso da informática como recurso pedagógico: um estudo de caso. São Paulo: Planeta Educação, 2010.
 
MORAN, José Manuel. Mudando a Educação com Metodologias Ativas. In: SOUZA, Carlos Alberto de; MORALES, Ofelia Elisa Torres (Org.) Convergências Midiáticas, Educação e Cidadania: Aproximações Jovens. Ponta Grossa: UEPG, 2015.
 
VALENTE, José Armando. Informática na educação: conformar ou transformar a escola.
Revista Perspectiva, Florianópolis: UFSC, v. 13 , n. 24, jul./dez. 1995, p. 41 – 49.
Disponível: < https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/viewFile/10703/10207> Acesso em: 8 set. 2015.
 
________. O computador na sociedade do conhecimento. Campinas, SP: UNICAMP, 1999.
 
VILAÇA, Márcio Luiz Corrêa. Educação, tecnologia e cibercultura: entre impactos, possibilidades e desafios. Revista Uniabeu, Rio de Janeiro, Belford Roxo, v. 8, n. 16, p.60-75, mai./ago. 2014.
 

[1] Revogada pela Portaria 1322/2012/MEC (Fonte: < https://www.fnde.gov.br> Acesso em: 17 ago. 2015)
[2] Dados relativos à versão 4.0. Disponível em: <http://linuxeducacional.c3sl.ufpr.br/LE4/versao.html> Acesso em: 07 set. 2015.
[3] Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=18838&Itemid=842> Acesso em: 03 set. 2015.

A PRODUÇÃO DE TECNOLOGIAS SOCIAIS NO CURSO TÉCNICO INTEGRADO EM INFORMÁTICA DO IFRN (CÂMPUS MOSSORÓ)
João Paulo de Oliveira[1]
Ilane Ferreira Cavalcante[2]
 
Nossa sociedade está concebendo uma tecnologia diferenciada, denominada de tecnologia social (TS), compreendida como o produto desenvolvido através da interação entre a instituição educacional e a comunidade. Com o presente trabalho, objetivamos discutir o papel do professor e a função do aluno na produção e difusão dessas tecnologias. Compreendemos que o ensino profissionalizante pode se tornar uma importante ferramenta para a implementação de um projeto educativo orientado às necessidades e melhorias da sociedade onde está inserido. Para tanto, os docentes precisam mover-se fora da cultura dominante para promover a produção, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais. Tendo em vista que a investigação está em curso, a metodologia deste trabalho consiste de uma pesquisa bibliográfica e análise dos documentos oficiais do Curso Técnico de Nível Médio Integrado em Informática do Instituto Federal do Rio Grande do Norte – IFRN (Câmpus Mossoró). O trabalho exprime uma problematização voltada para as relações entre professor/aluno/tecnologia/sociedade, atribuindo aos dois primeiros a função de co-pesquisadores na responsabilidade de transformar a sociedade através das tecnologias. Para tanto, é preciso que os alunos recebam uma formação adequada e a mesma esteja prevista nos documentos oficiais da instituição, garantindo aos atores envolvidos o desenvolvimento de práticas que possibilitem a criação e difusão das tecnologias sociais.  Assim, a avaliação dessa temática, sob a óptica da prática docente no âmbito da produção de tecnologias sociais, se faz relevante, à medida que avançamos na criação de infraestrutura e disponibilização de recursos físicos e de pessoal no IFRN.
Palavras-chave: Educação profissional, tecnologias sociais, prática docente
 
INTRODUÇÃO
 
Os desafios que encontramos na sociedade capitalista nos levam a refletir se estamos a pensar em nós mesmos, nos outros, ou apenas no mercado, sem nenhum cuidado com as necessidades e aspirações dos nossos semelhantes. Alguns questionamentos nos conduzem a refletir sobre as transformações ocorridas em virtude da inserção das novas tecnologias no cotidiano da população.
 Nos últimos anos, temos testemunhado mudanças significativas em toda a face da terra, tornando o mundo unificado (globalizado) em virtude da revolução tecnológica propiciada pelas novas tecnologias da informação e comunicação (SANTOS, 2011). Sabemos que a cada dia novas invenções tecnológicas são feitas pelo homem. Mas, será que esse desenvolvimento desenfreado estaria dando condições de igualdade a todos os seres humanos?  Há o cuidado com o outro, com o contexto onde está inserido, com uma sociedade que cada vez mais necessita de novos paradigmas para se desenvolver (SOUZA, 2011) de forma justa e igualitária?
Diante disso, faz-se necessário, também, novas abordagens educativas para enfrentar os problemas do dia-a-dia (SOUZA, 2011), pois as tecnologias produzem transformações importantes na natureza e nas relações sociais. Não é possível tratá-las isoladamente sem considerar e avaliar suas implicações na sociedade. A função social das instituições de educação deve ir além dos bancos escolares e se ramificar ao longo do entorno onde está inserida.
Trazendo essas discussões para o âmbito da proposta pedagógica do curso Técnico Integrado em Informática do IFRN (Câmpus Mossoró), preocupa-nos como os conhecimentos construídos no curso Técnico Integrado em Informática do IFRN (Câmpus Mossoró) têm contribuído para o rompimento da educação como mercadoria.  Os educandos têm feito uso dos conhecimentos adquiridos para contribuir com a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Há uma preocupação em atender às classes sociais menos favorecidas? Estamos construindo um modelo de ensino técnico coerente com o ideal de desenvolvimento progressista proposto por pela Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica?
Para refletir sobre estas questões, o presente artigo está estruturado através dos seguintes pontos: globalização solidária: é possível?; tecnologia social: uma ferramenta para construir um mundo solidário; a função social da escola na pós-modernidade; o Instituto Federal do Rio Grande do Norte – IFRN: um projeto progressista; o Curso Técnico Integrado em Informática do IFRN – Campus Mossoró e a possibilidade de produção de tecnologias sociais.
 
 
2 Globalização solidária: é possível?
 
Globalizar significa ampliar, estender, dominar espaços, expandir-se. Nessa perspectiva, podemos afirmar que a globalização, inicia-se com as conquistas territoriais do século XV. Quando os colonizadores chegavam em territórios novos ou “descobertos”, os nativos eram simplesmente ignorados. Sua língua, sua cultura e religião eram sobrepostas pelos interesses dos colonizadores que usavam, na maioria das vezes, da força física para impor-lhes as suas ideologias. Inicia-se, nesse contexto, o processo de dominação dos mais poderosos sobre os mais fracos.
 A discussão sobre globalização na sociedade atual tem sido um tema bastante recorrente desde as escolas de ensino básico ao meio acadêmico-científico. Geralmente é apresentada como justificativa para os acontecimentos que sucederam a segunda Guerra Mundial. Muitas vezes, ela é percebida como um processo natural inserido nos aspectos econômicos, políticos, culturais e sociais, ou seja, é um processo do qual não poderíamos fugir ou escapar.
A expressão “globalização”, desde que foi cunhada a partir de 1962, passou a ser um clichê que justifica todas as benesses da humanidade nas últimas décadas. A globalização encurtou distâncias, ampliou as formas de comunicação, possibilitou que as pessoas tivessem acesso a bens e serviços produzidos do outro lado do planeta e fortaleceu as relações fluídas da pós-modernidade (BAUMAN, 2001). Enfim, a globalização é a maior expressão da quebra comercial de fronteiras entre as nações, alterando os modos de pensar, agir, ser e de se comportar diante do mundo. Um exemplo claro é a questão do terrorismo imposta pelos EUA após a criação midiática do 11 de setembro. Nós precisávamos passar a ver todos os árabes como terroristas, agir como se estivéssemos em luta constante contra eles, sermos defensores da bandeira anti-terrorismo e nos comportarmos como ativistas do movimento anti-bomba. Da mesma forma, precisamos trocar a TV de LCD pela de LED porque a mídia insiste que é mais econômica e a imagem é melhor. Os jovens pós-modernos impõem aos seus pais a compra de um notebook que será, muitas vezes, usado apenas para acessar as redes sociais. Preferimos ver os filmes estadunidenses porque tem mais efeitos especiais, ritmo mais rápido e muito mais circulação e nem sempre assistimos aos filmes nacionais, sob o argumento de que os filmes brasileiros não são bons. Vivemos assim, a expressão máxima da liberdade entre os povos e, sobretudo uma fusão das diferentes culturas. Esse falso processo de liberdade comercial, proposto por Friedman[3] (1988), consolida-se com o surgimento do neoliberalismo no governo da ministra britânica Margareth Tacher, em 1979. No Brasil, as políticas neoliberais começam no governo Collor e são firmadas com maestria no governo FHC que colocou em prática seus conhecimentos de sociólogo libertário para aplicar as ideais de Friedman (1988). Para tanto, viabilizou a abertura comercial do país e privatizou os principais bens do Estado com o objetivo de torná-lo mínimo. 
Instalou-se, portanto, um processo de fusão de culturas que fortalece, fundamentalmente, o capitalismo, garante a continuidade da relação entre dominantes/dominados e a manutenção do status quo. Vivemos, portanto, uma era de apologia à globalização como sendo a melhor época do desenvolvimento da humanidade. Esquecemos que à medida que referendamos este processo, assistimos ao fortalecimento das ideias e práticas do capitalismo e aceitamos um modelo de “sociedade democrática” que não escuta a voz de quem precisa ser ouvido. Nesse sentindo, Santos (2011) argumenta que vivemos a existência de três mundos globalizados em um só:
1. O mundo do jeito que nos fazem vê-lo: a globalização como fábula, conforme apresentamos anteriormente. O avanço das novas tecnologias, o consumo e uso de marcas mundiais, a comunicação em tempo real, o crescimento do fluxo financeiro e o acesso a bens e serviços de outras culturas são as principais características deste mundo.  “É como se o mundo agora estivesse, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas” (SANTOS, 2011, p. 12).
2. O mundo tal como ele é: a globalização como perversidade. O desemprego, a fome generalizada nos continentes, a precarização do trabalho, o crime organizado, o surgimento de novas doenças, a redução de salários e as desigualdades sociais caracterizam essa outra face da globalização.
3. O mundo como ele pode ser: uma outra globalização, uma globalização mais solidária, mais humana e menos capitalista. As mesmas bases tecnológicas que são usadas para ramificar os tentáculos do capitalismo podem ser usadas para construir, sob uma perspectiva contra-hegemônica, um mundo livre, mas não apenas do ponto de vista econômico; um mundo livre das desigualdades e injustiças. Temos condições materiais (conhecimento e tecnologias) para isso, mesmo sabendo que a apropriação desses elementos pelos modelos capitalistas, dificulta a construção de outras políticas que levem à construção de um mundo menos perverso. Neste artigo, consideramos esta terceira perspectiva, pois acreditamos que as instituições educacionais, articuladas com a sociedade, podem corroborar com este processo de globalização solidária. Para tanto, precisamos desenvolver uma educação menos capitalista, formar cidadãos capazes de usar os conhecimentos adquiridos nos bancos escolares para fazer a interlocução com a sociedade civil e desenvolver tecnologias sociais que atendam às demandas das classes menos favorecidas imersas no processo de globalização perversa.
 
3 Tecnologia social: uma ferramenta para construir um mundo solidário
 
A sociedade atual já despertou para a possibilidade de reverter o processo de globalização rumo a uma visão mais solidária e está concebendo uma tecnologia diferenciada, denominada de tecnologia social, “que compreende produtos, técnicas ou metodologias desenvolvidas na interação com a comunidade e que representam efetivas soluções de transformação social.” (OTTERLOO, 2009, p.8). A tecnologia social pode contribuir significativamente para um modelo de desenvolvimento solidário na perspectiva contrária à globalização hegemônica. Quando a cultura popular e os conhecimentos locais são incorporados mediante o uso de instrumentos apropriados pelas pessoas da comunidade, temos um processo inverso, ou seja, a tecnologia não vem pronta e excludente. Ela nasce no contexto social e, portanto, atende às necessidades dos grupos/movimentos sociais. Ela é construída pelos atores interessados e seus valores e interesses passam a ser considerados nos projetos de tecnologia. Dagnino reforça que as tecnologias sociais emergem “(...) mediante a prospecção das demandas cognitivas e a proposição de soluções tecnológicas realizadas na interface entre academia, movimentos sociais, (...) órgãos de governo e comunidades locais.” (2009, p. 6).
A tecnologia social é, portanto, uma tecnologia alternativa à tecnologia convencional do sistema capitalista. Tem como característica principal, a participação das pessoas buscando promover questionamentos estruturais sobre forma de produção capitalista. Dessa forma, a tecnologia social, apresenta-se como alternativa contra-hegemônica que visa propiciar o desenvolvimento técnico-científico das comunidades pobres que sofrem os efeitos colaterais da globalização.
Nas instituições, a tecnologia social permite a participação direta do trabalhador e é capaz de viabilizar economicamente os empreendimentos autogestionários e as pequenas empresas. Nas comunidades, elas promovem uma verdadeira revolução, pois unem o desenvolvimento à sustentabilidade, geram renda, possibilitam maior integração e inclusão dos habitantes, consolidam a cidadania e ainda solucionam os problemas do cotidiano.
A tecnologia convencional (TC) é a tecnologia antagônica à tecnologia social, pois atende ao sistema capitalista e fortalece o processo de globalização perversa, ou seja, ela não resolve os problemas sociais, pois não tem compromisso com as necessidades e demandas provenientes das classes pobres. Segundo Dagnino (2004 apud NOVAES e DIAS, 2002):
A tecnologia convencional é segmentada, não permitindo que o produtor direto exerça controle sobre a produção; é alienante, pois suprime a criatividade do produtor direto; é hierarquizada, pois exige que haja a posse privada dos meios de produção e o controle sobre o trabalho; tem como objetivo principal (senão único) maximizar a produtividade para acumular capital, ainda que isso tenha efeitos negativos sobre o nível de emprego. A TC é, ainda, irradiada pelas empresas dos países do norte e absorvida de forma acrítica pelas empresas dos países subdesenvolvidos; por fim, a TC impõe aos países subdesenvolvidos padrões que são orientados pelos mercados dos países desenvolvidos, de alta renda ou para a elite dos países subdesenvolvidos. (p. 18)
 
Observamos que o uso e difusão das tecnologias convencionais acentuam a desigualdade das comunidades pobres e contribuem para a alienação da população pobre. Esta não dispõe de alternativas (tecnologias sociais) para fazer a sangria da imposição tecnológica dos países dominantes aos países dominados.
O conceito de tecnologia social foi criado no Brasil no início da década de 2000, mas a ideia de levar tecnologia aos menos favorecidos remonta à década de 1970 quando surgiu o movimento da tecnologia apropriada. Os princípios e os objetivos eram os mesmos, mas com uma diferença fundamental: os projetos não eram desenvolvidos com a participação dos atores interessados, ou seja, a tecnologia era pensada e projetada por pessoas que não necessariamente conheciam a realidade que pretendiam melhorar. “(...) Sua postura era defensiva, adaptativa e não-questionadora das estruturas de poder dominantes no plano internacional e local.” (NOVAES; DIAS, 2002, p. 24-25, grifo nosso).  Importante ressaltar que, conforme Novaes e Dias (2002), o conceito de Tecnologia Apropriada foi introduzido pelo economista alemão Schumacher (1973) e a história nos mostra que a lógica financeira nada tem a ver com a lógica da solidariedade. A tecnologia apropriada falhou pelo fato de não considerar a base e acabou servindo como justificativa de aceitação dos índices de desemprego nos países periféricos, pois as pessoas deixaram de conseguir empregos pelo fato de serem qualificadas apenas para o uso de tecnologias apropriadas. Certamente, essa não era a explicação, pois “a maioria dos grupos de pesquisadores de tecnologia alternativa está situada nos países do Primeiro Mundo e foi muito escassa a incidência de seu trabalho junto às populações do Terceiro mundo que pretendiam beneficiar” (NOVAES; DIAS, 2002, p. 25). A tecnologia apropriada acabou sendo uma tentativa de promover a degradação ou despromoção da tecnologia convencional, para atender aos interesses de outros grupos que apoiavam a manutenção da relação dominantes-dominados. No entanto, esse modelo acabou por sucumbir junto com a ascensão do neoliberalismo.
A tecnologia apropriada, assim como a tecnologia social, procurou descontruir a hegemonia da tecnologia convencional, mas esta última, traz à sociedade a proposta de desenvolvimento de um projeto de construção coletiva e de novas alternativas à globalização. Neste processo, é fundamental a consolidação do conceito de solidariedade global entre os diferentes povos. A tecnologia social deve sair em defesa da sociedade e questionar as estruturas de poder dominantes no plano macro da globalização e valorizar as estruturas locais (plano micro da globalização). Não pode recair no erro de produzir bens para fortalecer estruturas capitalistas. Deve ser uma tecnologia de ponta e que permita aos cidadãos usufruir dos mesmos bens e serviços proporcionados pelas tecnologias convencionais. A tecnologia social reúne, segundo Novaes e Dias (2002), as seguintes características: 1) é adaptável; 2) não deve promover o controle capitalista e dominar os trabalhadores; 3) é orientada para a satisfação das necessidades humanas; 4) incentiva o potencial e a criatividade dos atores interessados; 5) viabiliza empreendimentos de cooperados.
A globalização hegemônica insere na sociedade um conjunto de tecnologias genéricas que desconsideram a realidade local e atendem às demandas de mercado, não tendo, portanto, preocupação com a cultura local e se esta terá condições financeiras e intelectuais de fazer uso das mesmas.  A tecnologia influencia o ambiente onde se insere e quando este não participa da sua construção, rompe com a possibilidade de redimensionar os conhecimentos do homem em função da melhoria da qualidade vida de seus semelhantes.
A tecnologia social pode e deve ser projetada de forma que possa ser modificada, pois é adaptável e adequada aos valores e necessidades de grupos sociais distintos. Importante ressaltar que, para tal, é necessário que a patente não seja apropriada, ou seja, é preciso utilizar-se de mecanismos jurídicos e de licenças específicas que garantam a propriedade coletiva.
Esse processo de produção colaborativa de tecnologias, articulado com os diversos segmentos sociais, para atender às necessidades da população é o primeiro passo para construímos um mundo mais solidário e o início do processo de retirada do poder das classes dominantes. 
 
4 A função social da escola na pós-modernidade
A escola, sob o ponto de vista do capital, estimula a concorrência, a rivalidade e a competição entre os educandos, formando cidadãos desprovidos de solidariedade e preparados para viver o processo de globalização hegemônica. A Teoria do Capital Humano (SHULTZ, 1973) contribuiu significativamente para subordinar as instituições educacionais às necessidades do mercado de trabalho. A educação tornou-se um elemento fundamental dentro do sistema capitalista sendo “concebida como produtora da capacidade de trabalho, potencializadora do fator trabalho.” (FRIGOTTO, 1999, p.40). Além de ser determinante no processo de fortalecimento do sistema, passa a ser o fator que explica as diferenças de capacidade de trabalho, de produtividade e de renda. Com isso, exauriu-se a discussão acerca da função social da escola, já que, quando a escola produz soluções para atender às demandas sociais (fora do mercado) ela se torna improdutiva.
Mas, segundo Santomé (2003) os estudos que exploram o potencial dos professores como agentes de transformação social, demonstraram que as instituições escolares não funcionam sempre em um sentido reprodutor do sistema hegemônico. A formação dos professores, agregada ao seu interesse pessoal em fazer um mundo melhor, pode garantir aos seus alunos outra visão de mundo e determinar o cumprimento da função social da instituição educacional.
A escola deve acompanhar as transformações sociais e buscar maneiras de favorecer a sociabilidade do conhecimento, de ramificar-se, estender-se além da sala de aula e perpassar os muros físicos e ideológicos impostos pelo poderio econômico. Assim como a pós-modernidade é líquida (BAUMAN, 2001), a escola deve deixar fluir pelo plano social as intervenções que julgar necessárias para a construção de um mundo mais solidário.
A pós-modernidade pode, inclusive, ser compreendida como esse processo constante de transformações tecnológicas impulsionadas pela globalização hegemônica que altera todos os segmentos da sociedade e a vida cotidiana dos cidadãos.
Para tanto, precisamos considerar que, dentro do ambiente escolar temos pessoas com pensamentos diversos e que este feito não será alcançado de forma tão rápida. Esse processo será gradual e envolve, além dos outros elementos que compõem a teia educacional, a relação professor-aluno. “Não podemos esquecer que existem professores e professoras com ideologias diferentes, com interesses e preocupações muito distintas.” (SANTOMÉ, 2003, p. 248).  Os professores têm visões de mundo diferentes e suas ideologias são refletidas no projeto curricular e em suas práticas escolares. Neste sentido, podemos identificar pelo menos dois perfis de professores nas instituições educacionais:
1. Os conservadores: são profissionais com postura e pensamentos hegemônicos que defendem a manutenção do sistema capitalista e acabam contribuindo para a manutenção do status quo. Esse grupo de profissionais considera uma ameaça, a colaboração de outras pessoas e organizações sociais no seu ambiente de trabalho (escola). Dessa forma, o debate sobre as necessidades sociais, acaba sendo irrelevante e o professor deixa de contribuir com a efetivação da função social da escola. Docentes com esse perfil não percebem que a interlocução com as organizações trata-se, apenas, de compreender a realidade dessas pessoas para desenvolver um projeto escola-comunidade, em que esta última possa contribuir com a missão de educar os alunos que eles se propuseram a formar.
2. Os progressistas: são os profissionais que acreditam na mudança da sociedade e que desenvolvem suas práticas pedagógicas em função dessas modificações sociais.  O professor progressista sente-se apoiado com a participação da sociedade em sua prática profissional e tem maior propensão em desenvolver ações contra-hegemônicas para reformular a sociedade democrática de forma participativa. Segundo Santomé (2003), “quando um professor ou professora aposta na defesa da democracia, tentando exercer seus direitos de cidadão ou cidadã, preocupando-se com seu bairro, com grupos sociais desfavorecidos (...), percebe que também as escolas são lugares importantes em sua luta” (p. 240).  Freire (2000) nos fala sobre o educar para a vida, sobre pensar o quê das coisas, destacando a necessidade da participação ativa dos jovens, em que esses exercitem a sua participação na comunidade, que possam questionar, criticar, analisar suas contribuições, com vistas à resolução de problemas sociais que o cercam. (apud SOUZA, 2011). O professor progressista tem a consciência de que ele não educa sozinho e que sua função vai além daquela desejada pelo sistema capitalista e imposta pela burguesia.
Assim, inferimos que os profissionais progressistas podem ter uma parcela considerável de responsabilidade na execução de um projeto educacional capaz de agregar o saber sistematizado com o conhecimento empírico, fazendo cumprir a função social da escola na pós-modernidade. Para tanto, é importante que os documentos oficiais das instituições educacionais apresentem esta perspectiva de formação e que os profissionais envolvidos tenham as condições materiais de formar alunos com um perfil sócio-crítico. Com esta proposta colocada em prática, podemos desenvolver ações contra-hegemônicas possibilitando a produção participativa de tecnologias sociais nos espaços escolares e sua disseminação gratuita e assistida nas comunidades do entorno.
5 O Instituto Federal do Rio Grande do Norte – IFRN: um projeto progressista
A Lei nº 11.892, de 29/12/2008 que instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e criou os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia destaca que, dentre outras finalidades e características, os Institutos devem:
- Ofertar educação profissional e tecnológica, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional;
- Desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e peculiaridades regionais;
- Promover a produção, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias sociais; (2008, grifo nosso)
 
Conforme afirma Pacheco, o Instituto Federal aponta para um novo tipo de instituição, identificada e pactuada com o projeto de sociedade em curso no país na última década.
Trata-se de um projeto progressista que entende a educação como compromisso de transformação e de enriquecimento de conhecimentos objetivos capazes de modificar a vida social e de atribuir-lhe maior sentido e alcance no conjunto da experiência humana, proposta incompatível com uma visão conservadora de sociedade. Trata-se, portanto, de uma estratégia de ação política e de transformação social. (2011, p. 17, grifo nosso)
Seguindo o pensamento de Freire (2000, p. 11-12), podemos afirmar que uma característica desejável do docente do Instituto Federal do Rio Grande do Norte – IFRN é ter uma postura progressista, alinhando e discutindo alguns saberes fundamentais à prática educativo-crítica. Aproveitando o conhecimento de mundo do aluno, o docente, como um ator social que visa a transformação, traz para a sua prática o objetivo de desenvolver habilidades e estimular a resolução dos problemas a partir da realidade local dos alunos. Essa abordagem garante a consolidação da função social dos Institutos e reafirmam a educação profissional e tecnológica como uma política pública consolidada capaz de dinamizar a região onde os campi estão implantados.
Moura (2008, p. 29) acrescenta que é fundamental capacitar os docentes e toda a comunidade educacional para mover-se fora da cultura dominante, aproximar-se dela para entendê-la e analisá-la criticamente com os seus estudantes, visando descobrir e compreender os processos de construção social presentes na sociedade. O Projeto Político Pedagógico do IFRN aponta que a Instituição “oferta (...) cursos em sintonia com a função social (...) visando a consolidação e o fortalecimento dos arranjos produtivos, culturais e sociais locais. (IFRN, p. 20, grifo nosso). O PPP aponta ainda que:
(...) a Instituição visa contribuir para as transformações da sociedade, visto que esses processos educacionais são construídos nas relações sociais.
No que concerne à comunidade acadêmica, há os sujeitos sociais diretamente envolvidos com os processos pedagógicos e administrativos do IFRN. Essa comunidade é constituída por três segmentos: estudantes, professores e técnicos-administrativos. Numa perspectiva mais abrangente, acrescenta-se, a esse coletivo, a comunidade local, composta tanto por pais dos estudantes e/ou responsáveis pelos estudantes quanto por representantes da sociedade civil.
A expansão do IFRN amplia, significativamente, a atuação nas áreas de ensino, de pesquisa e de extensão; contribui, de modo mais extensivo, para a formação humana e cidadã; e estimula o desenvolvimento socioeconômico, à medida que potencializa soluções científicas, técnicas e tecnológicas, com compromisso de estender benefícios à comunidade. (IFRN, 2002, p. 20, grifo nosso)
Assim, a avaliação dessa temática, sob a óptica da função social do Curso Técnico de Integrado em Informática se faz relevante tendo em vista o projeto proposto pela Rede Federal de Educação Profissional e previsão da produção e transferência de tecnologias sociais na Lei de criação dos Institutos.
 
6 O Curso Técnico Integrado em Informática do IFRN – Campus Mossoró e a possibilidade de produção de tecnologias sociais.
 
A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - UNESCO (2011, p. 11) apresenta como proposta educativa as dimensões articuladoras trabalho, cultura, ciência e tecnologia, num protótipo que sugere organizar “[...] atividades de transformação por meio da própria escola [...], ampliando o contexto da ação para a comunidade e para o mundo.” Desta forma, é interessante que o IFRN desenvolva práticas escolares que promovam esses eixos de forma integradora e interdisciplinar. Acerca disso, Moura destaca que:
O modelo vigente, produto da dependência econômica externa histórica, é baseado nas exportações agroindustrial, agropecuária e de matérias-primas e na importação acrítica das tecnologias produzidas nos países de capitalismo avançado. Isso, ao longo do tempo, vem fazendo com que o país não tenha modelo próprio de desenvolvimento orientado às suas necessidades e melhorias sociais e econômicas. Ao invés disso, vem prevalecendo, historicamente, a submissão aos indicadores econômicos, aos organismos internacionais de financiamento e aos investidores internacionais, principalmente os de curto prazo (na prática, especuladores). (2008, p. 25, grifo nosso)
Nesse sentido, Moll (2010) observa que o ensino profissionalizante sinaliza um claro encaminhamento para que essa modalidade de ensino se torne uma poderosa ferramenta para a implementação de um projeto educativo com forte determinação na superação de desigualdades nos planos social, econômico, cultural e político.
Moura (2008, p. 30) aponta que o ensino técnico deve buscar soluções para os problemas comunitários, ou seja, realizar ações orientadas à melhoria da qualidade de vida do entorno, especialmente das classes mais populares. A partir dessas questões, analisaremos como está proposta a relação entre o Projeto Pedagógico do Curso Técnico de Nível Médio em Informática na forma Integrada, na modalidade Presencial (2009) do IFRN (Câmpus Mossoró) e a sua função social diante da nova globalização discutida neste artigo.
O IFRN tem como função social ofertar educação profissional e tecnológica comprometida com a formação humana integral, com o exercício da cidadania e com a produção e a socialização do conhecimento, visando, sobretudo, a transformação da realidade na perspectiva da igualdade e da justiça sociais. Nesse sentido, podemos afirmar que o curso, objeto de análise deste artigo, possui grande aparato para o desenvolvimento e difusão das tecnologias sociais. Inicialmente devemos apontar que, além de outras capacidades, o profissional com essa formação deve:
- Conhecer e utilizar as formas contemporâneas de linguagem, com vistas ao exercício da cidadania e à preparação para o trabalho, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
- Compreender a sociedade, sua gênese e transformação e os múltiplos fatores que nela intervêm como produtos da ação humana e do seu papel como agente social;
- Conhecer e aplicar normas de sustentabilidade ambiental, respeitando o meio ambiente e entendendo a sociedade como uma construção humana dotada de tempo, espaço e história;
- Ter atitude ética no trabalho e no convívio social, compreender os processos de socialização humana em âmbito coletivo e perceber-se como agente social que intervém na realidade;
-Posicionar-se critica e eticamente frente às inovações tecnológicas, avaliando seu impacto no desenvolvimento e na construção da sociedade. (IFRN, 2011, p. 10-12, grifo nosso)
Os trechos acima permitem afirmar que o Projeto Pedagógico do Curso propõe uma formação pautada nos problemas sociais e prevê a possibilidade de ações para uma aproximação com a comunidade. A matriz curricular do Curso Técnico de Nível Médio em Informática está integrada da seguinte forma :
1. Formação geral (2.070h): integra disciplinas das três áreas de conhecimento do Ensino Médio (Linguagens e Códigos e suas tecnologias, Ciências Humanas e suas tecnologias e Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias), observando as especificidades de um currículo integrado com a educação profissional; 
2. Parte diversificada (480h): integra disciplinas voltadas para uma maior compreensão das relações existentes no mundo do trabalho e para uma articulação entre esse e os conhecimentos acadêmicos;
3. Formação profissional (930h): integra disciplinas específicas da área de Informática voltadas para Informática. (IFRN, 2011, p. 9, grifo nosso)
 
Neste artigo, daremos ênfase à parte diversificada, pois entendemos que o processo de interdisciplinaridade poderia propiciar a efetivação da função social do curso, mas para isso, deveria constar de forma mais explícita neste eixo estruturante. As disciplinas previstas são: informática; filosofia; sociologia; 2ª língua estrangeira - espanhol/francês; desenho; orientação educacional (2); gestão organizacional e segurança do trabalho.
Como podemos observar não há nenhuma referência direta à tecnologia social como forma de aproximação do curso com a realidade onde ele se insere. Outrossim, observamos que a expressão “tecnologia social” não aparece em nenhum momento do Projeto Pedagógico do Curso, apresentando dessa forma, uma discrepância entre a proposta dos Institutos Federais e o curso em discussão.
Podemos afirmar que, para pôr em prática a proposta dos Institutos Federais, é importante que, os cursos oferecidos pela Rede Federal de Educação Profissional e tecnológica, estejam em consonância com o projeto progressista que a sociedade pós-moderna precisa. Dessa forma, estabeleceremos um diálogo social com o intuito de compreender e mudar a realidade onde os Institutos estiverem presentes. 
 
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A globalização, produto da revolução tecnológica, traz mudanças na organização do trabalho, cria novas formas de socialização, processos de produção e novas definições de identidade nas relações sociais. Fazemos parte de uma revolução proporcionada pelas ferramentas e práticas do universo da informação automatizada que tem tudo a ver com o dia-a-dia. No entanto, não percebemos que esse processo é excludente e perverso. O conhecimento científico e suas aplicações na sociedade aumentaram e deverão continuar crescendo. A tecnologia deveria proporcionar mais benefícios à humanidade, já que a ciência está a serviço da melhoria da qualidade de vida das pessoas e não da degradação humana. Mas, sabemos que muitas vezes a ciência acaba servindo aos interesses do sistema capitalista e não à população como preconiza o objetivo teórico do desenvolvimento científico.
As instituições educacionais também servem a este sistema, mas o aumento crescente dos problemas sociais na pós-modernidade exige uma reformulação das propostas curriculares das escolas e uma maior aproximação dos problemas sociais. Surge, dessa forma, a necessidade de redefinição da função social das instituições de ensino. Estas, são conclamadas pela sociedade a desenvolverem ações contra-hegemônicas a fim de produzir soluções que atendam às necessidades não contempladas pelas tecnologias convencionais.
 Nesse contexto, surgem as tecnologias sociais que compreendem todo e qualquer produto (ou artefato) desenvolvido com a participação da comunidade e/ou de movimentos sociais. O desenvolvimento dessa nova concepção de tecnologia, favorável à superação das desigualdades sociais trazidas pela globalização, é possível a partir de uma proposta pedagógica pautada na formação politécnica[4] dos alunos e em uma formação humana integral, condizente com a função social da escola na contemporaneidade. Para tanto, é preciso sair do foco do mercado, mudar o paradigma vigente, dialogar com os movimentos sociais e construir sistematicamente um mundo sustentável e solidário.
Os Institutos Federais, criados pela Lei 11.892 de 29/12/2008, surgem com a proposta de contribuir com a formação crítica e cidadã, ampliando sua ação no interior dos diversos estados brasileiros, a partir de seu processo de expansão, propondo-se a atuar em focos tecnológicos que fomentem o desenvolvimento social. Nesse contexto, os documentos institucionais gerais (Projeto Político Pedagógico institucional) e os projetos pedagógicos dos cursos, trazem explícita e implicitamente a proposta de integrar conhecimentos e proporcionar uma formação crítica e participativa. Assim, a possibilidade de produção de tecnologias sociais propostas por professores ativistas e absorvida pelos alunos do Curso Técnico de Nível Médio em Informática pode certificar a importância e o papel da Educação Profissional Integrada para a sociedade e significar um fator determinante para a construção de saberes contextualizados e focados na resolução de problemas sociais.
 
REFERÊNCIAS
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DAGNINO, Renato Peixoto. Tecnologia social: ferramenta para construir outra sociedade. Campinas, SP: IG/UNICAMP, 2009.
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ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA - UNESCO. Protótipos curriculares de ensino médio e ensino médio integrado: resumo executivo.  Brasília, DF, 2011. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0019/001922/192271POR.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2013
 

[1]Especialista em Educação Profissional pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN. Mestrando do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN. Assistente em Administração do IFRN – Campus Mossoró. Email: joao.oliveira@ifrn.edu.br
[2]  Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Profa. de Língua Portuguesa do Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN (Campus EAD) e professora do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN (Campus Natal-Central). Email: ilane.cavalcanti@ifrn.edu.br
[3] Friedman defendia o livre comércio entre as nações com o mínimo de intervenção estatal.
[4] Conceito desenvolvido inicialmente por Karl Marx o qual consiste em “(...) uma educação que, ao propiciar aos sujeitos o acesso aos conhecimentos e à cultura construídos pela humanidade,propicie a realização de escolhas e a construção de caminhos para a produção da vida”. (RAMOS, p. 3, [2008])

O MODELO DE EDUCAÇÃO PÚBLICA PROPOSTO PELA REVOLUÇÃO FRANCESA E SUA RELAÇÃO COM O FORTALECIMENTO DO CAPITALISMO
 
João Paulo de Oliveira[1]
(IFRN – Campus Mossoró - joao.oliveira@ifrn.edu.br)
Ilane Ferreira Cavalcante[2]
(IFRN – Campus EAD - ilane.cavalcanti@ifrn.edu.br)
Magnolia Maria da Rocha Melo[3]
(IFRN – Campus Mossoró - magnolia.rocha@ifrn.edu.br)
Cybelle Dutra da Silva[4]
(IFRN – Campus Natal-Central – cybelledutrasilva@gmail.com)
 
INTRODUÇÃO
 
A escola é o lugar onde convivemos com uma diversidade de pessoas e o segundo ambiente que todos nós, possivelmente, freqüentamos após a nossa casa. Assim, é o local onde estabelecemos relações sendo, naturalmente, um espaço de representatividade social que se estende além do seu espaço físico. O conhecimento sistematizado que temos acesso na escola diferencia-se do conhecimento de mundo porque aquele deve complementar a formação do cidadão e dar as condições intelectuais para a transformação de sua vida.
A educação é uma necessidade inquestionável e sua presença nas nossas vidas é um importante mecanismo de socialização dos conhecimentos humanos. Com isso, ela se torna um instrumento capaz de garantir a sobrevivência da espécie, a continuidade das conquistas das gerações e a emancipação do ser humano. No entanto, a educação pública, enquanto responsabilidade do Estado, também pode funcionar como um forte instrumento para potencializar o sistema capitalista e, consequentemente, acentuar a divisão de classes. No desafio de refletir sobre o papel da escola na sociedade, o presente artigo, tem como objetivo discutir o modelo de educação pública que emergiu no século XVIII durante a Revolução Francesa e como ele contribuiu para o fortalecimento do capitalismo.
 
2 METODOLOGIA
 
Para alcançar o objetivo proposto, realizamos uma pesquisa bibliográfica embasados em Enguita (1989), Rodríguez (2010) e Souza, Ferreira e Barros (2009).
3 O MODELO DE EDUCAÇÃO PÚBLICA DA REVOLUÇÃO FRANCESA
No início do século XVII a França se subdividia em três estados: o clero, a nobreza e o povo. Os dois primeiros estados concentravam a maior parte da riqueza da sociedade, gerando assim, profundas desigualdades, pois no terceiro estado se concentrava o maior número de cidadãos. A insatisfação com a cobrança de impostos e a situação miserável em que se encontrava a população, levou à tomada do poder por parte do povo. Iniciou-se a Revolução Francesa e nesse movimento emerge a burguesia que, ao tomar o poder exigiu que “[...] a educação fosse voltada para todos os homens, passando a ser um direito desses, deixando de ser apenas privilégio de classe.” (SOUZA, FERREIRA e BARROS, 2009, p. 490, grifo dos autores).
No entanto, o objetivo da burguesia era garantir a democracia burguesa. Para tanto, precisava proporcionar uma educação que possibilitasse a participação do cidadão, mas ao mesmo tempo o preparasse para mantê-lo como servo do regime capitalista. Acerca da educação pública instituída pela burguesia durante a Revolução Francesa, Enguita (1989) acrescenta que:
Os pensadores da burguesia em ascensão recitaram durante um longo tempo a ladainha da educação para o povo. Por um lado, necessitavam recorrer a ela para preparar ou garantir seu poder, para reduzir o da igreja e, em geral, para conseguir a aceitação da nova ordem. Por outro, entretanto, temiam as consequências de ilustrar demasiadamente aqueles que, a fim e ao cabo, iam continuar ocupando os níveis mais baixos da sociedade, por isto poderia alimentar neles ambições indesejáveis.  (p. 110)
O texto do Relatório e Projeto de Decreto sobre organização geral da instrução pública apresentado, em 1792, por Condorcet[5] à Assembléia Legislativa, durante a Revolução Francesa, propunha dois tipos de instrução pública: as massas deveriam ter uma formação básica e a instrução avançada seria destinada apenas a alguns indivíduos da sociedade. (RODRÍGUEZ, 2010, p. 70). Portanto, a escola estatal tinha como objetivo formar súditos para atender às demandas do Estado e garantir a manutenção dos novos meios de produção.
A burguesia havia chegado ao poder através de uma sangrenta revolução contra o Antigo Regime francês. No entanto, algumas mudanças esperadas pelos demais constituintes do antigo terceiro estado não se materializaram. A burguesia participou ativamente de todo o processo que levou à queda do rei Luiz XVI e, consequentemente, ela conhecia, com propriedade, os elementos usados para garantir o sucesso de uma revolução, bem como os mecanismos necessários para conter uma possível revolta da classe operária em um movimento de “contrarrevolução”.
Após 10 anos de muitas lutas, divergências e mortes, iniciou-se uma nova fase da história da humanidade. A consolidação de uma incipiente forma de produção, caracterizada, essencialmente pelo acúmulo de riquezas, aumento da produção e exploração da mão de obra humana. Estava extinto, definitivamente, o regime de trocas de mercadorias do sistema feudal e iniciado o sistema capitalista. Dadas as desigualdades intrínsecas a esta forma de exploração, a classe opressora, protagonizadora do limiar de um “novo tempo” começava a enfrentar muitas crises sociais, em virtude da insatisfação da classe oprimida. Com a experiência adquirida, a burguesia sabia que não podia continuar resolvendo tudo à base da força armada e precisava lançar mão de estratégias mais pacíficas para fazer a contrarrevolução que consistia na dominação da classe oprimida através do poderio econômico. Dessa forma, a luta continuaria, não mais no campo de batalha, mas dentro da estrutura organizacional do comércio impulsionado pelo capitalismo. Surgiu assim, a necessidade de implantar um modelo de educação pública que atendesse aos interesses da burguesia (detentora do poder) e oferecesse ao cidadão uma formação capaz de evitar a formação de conflitos contra os domínios da expansão capitalista.
Segundo Rodriguez (2010), durante a Revolução Francesa “[...] foram concebidas novas ideias educacionais e se travaram debates [...] sobre o papel do Estado e o conceito de educação pública.” (p. 68). Com isso, a burguesia revolucionária tinha em suas mãos a munição para ganhar a guerra através da educação e perpetuar-se no poder até os dias de hoje. Para tanto, o Estado toma para si a responsabilidade de institucionalizar a escola pública, define suas diretrizes e implanta um modelo de educação pública capaz de garantir a hegemonia da classe dominante. O cidadão passa a receber uma formação que, atende primeiramente, aos interesses da burguesia e nem percebe a ideologia constante da mesma, já que o discurso introjetado pela burguesia é a oferta de uma educação pública e de qualidade que atenda aos interesses pessoais e melhore as condições de vida da classe proletária. Segundo Souza, Ferreira e Barros (2010),
Essa escola seria um caminho a ser trilhado pelos indivíduos, porém, não como opção ou escolha de cada um, mas como um instrumento político que formaria o homem moderno. Uma escola pública, universal, gratuita, leiga e obrigatória, em que cada indivíduo seria educado e instruído de acordo com a “moral burguesa laica”, ou seja, para viver nessa nova sociedade. (p. 492)
 
Conforme podemos observar, o modelo de escola pública proposto pela burguesia da Revolução Francesa funcionava como um instrumento de fortalecimento do sistema capitalista, regulamentado e mantido pelo Estado para manter de forma pacífica a ordem burguesa. 
 
4 CONCLUSÃO
 
Com o término do feudalismo e a ascensão do sistema capitalista, a educação sofre uma nova reestruturação, visto que ela passa a ser um elemento de fundamental importância à consolidação do novo modelo econômico.
A nossa análise sobre o modelo de educação pública que surge na Revolução Francesa, nos permite concluir que o desmantelamento da educação pública moderna tem profundas raízes nos propósitos dos ideiais burgueses do século XVIII. O modelo proposto tinha como discurso o fim dos privilégios educacionais do clero e da nobreza, bem como a oferta de uma educação pública para todos os cidadãos. Mas, o que houve foi uma apropriação pela burguesia da máquina estatal para atender aos seus interesses com o pomposo discurso da educação para todos, fortalecendo assim, o capitalismo.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
ENGUITA, Mariano Fernández: A face oculta da escola: educação e trabalho no capitalismo, tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
 
RODRÍGUEZ, Margarita Victoria. A origem da escola moderna: o legado de Condorcet. Acta Scientiarum.:Education, Maringá, v. 32, n. 1, p.67-74, 2010. Trimestral. Disponível em: <http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciEduc/article/download/9771/5882>Acesso em: 20 mar. 2014.
 
SOUZA, Paulo Rogério de; FERREIRA, Magda Maria de Marchi; BARROS, Marta Silene Ferreira. História da educação pública como instrumento da formação burguesa. In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO – EDUCERE, 9, 2009, Curitiba. Anais... Curitiba: PUCPR, 2009, p. 488-498. Disponível em: <http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/2475_1142.pdf>. Acesso em: 19 mar. 2014.
 
 

[1] Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Profa. de Língua Portuguesa do Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN (Campus EAD) e professora do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN (Campus Natal-Central).
[2]Especialista em Educação Profissional pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN. Mestrando do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN. Assistente em Administração do IFRN – Campus Mossoró.
[3] Mestre em Serviço Social pela UFRN. Assistente social do IFRN – Campus Mossoró.
[4] Especialista em Ecologia e Meio Ambiente pela FAFIRE. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN
[5]Condorcet (1743 – 1794) foi o filho mais velho de uma família nobre. Apoiou a Revolução Francesa e foi Ministro da Assembléia Legislativa Revolucionária. Defendia a reforma da educação e elaborou um plano para financiar as escolas públicas. Apoio os jacobinos radicais, foi preso e morto no cárcere. (RODRÍGUEZ, 2010). Segundo Enguita (1989), Condorcet foi timidamente partidário não apresentando claramente uma posição favorável à educação universal.

AS IMPLICAÇÕES DOS PROCESSOS DE GLOBALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA BRASILEIRA[1]
 
João Paulo de Oliveira
Especialista em Educação Profissional pelo Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN. Mestrando do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN. Assistente em Administração do IFRN – Campus Mossoró. Email: joao.oliveira@ifrn.edu.br
Ilane Ferreira Cavalcante
Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Profa. de Língua Portuguesa do Instituto Federal do Rio Grande do Norte - IFRN (Campus EAD) e professora do Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN (Campus Natal-Central). Email: ilane.cavalcanti@ifrn.edu.br
 
Resumo
 
Os processos de globalização hegemônicos e contra-hegemônicos trazem em sua essência fortes implicações para a educação profissional e tecnológica (EPT) brasileira. Nessa perspectiva, o presente trabalho tem como objetivo discuti-los e analisar suas relações com a educação profissional e tecnológica em uma perspectiva de transformação da sociedade. Para tanto, realizamos uma pesquisa bibliográfica, fundamentada em Boaventura Santos (2002), Milton Santos (2011), Magalhães (2004), Marx e Engels (1998) e Gadotti (2003). Observamos que a EPT pode funcionar como um forte instrumento de transformação e libertação das classes dominadas, ao atuar na perspectiva da globalização contra-hegemônica.
 
Introdução
O nascimento da globalização se dá a partir do momento em que o capitalismo sente a necessidade de se expandir, de dominar e gerar cada vez mais lucros. Como essas características são condições natas ao sistema capitalista, podemos afirmar que a globalização é condição à consolidação do capitalismo. No século XX, a terminologia globalização passou a ser usada para designar as inter-relações proporcionadas aos países em virtude do avanço das tecnologias de informação e comunicação após a Segunda Guerra Mundial.
As transformações impulsionadas pelos processos de globalização trouxeram à educação profissional e tecnológica (EPT) brasileira implicações distintas: do ponto de vista da globalização hegemônica ela deve se voltar para a formação de mão de obra qualificada para atender ao mercado de trabalho; do ponto de vista da globalização contra-hegemônica, a EPT pode, por meio da socialização do conhecimento e da formação humana integral, propiciar transformações sociais mais profundas, perpassando os interesses ideológicos do capitalismo.
No início do século XX quando as Escolas de Aprendizes e Artífices foram criadas no Brasil, a EPT tinha como objetivo garantir aos excluídos um ofício que lhes permitisse sua inserção no mercado de trabalho. Ao longo do tempo a EPT passou por significativas transformações, mas sempre permeada pelos interesses políticos da classe dominante e ancorada na globalização hegemônica.  No entanto, com a expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica[2], vislumbramos o início de um ciclo de ações capaz de romper com os interesses do capitalismo e de fortalecer a educação pública brasileira. Para tanto, é fundamental o desenvolvimento de uma educação pautada na perspectiva da formação cidadã e da transformação social, fortalecendo assim, a globalização contra-hegemônica.
Os processos de globalização, precisam ser compreendidos no contexto da EPT, pois somente assim é possível desenvolver uma proposta pedagógica voltada à formação humana integral capaz de atender aos interesses do mercado e, sobretudo aos anseios do cidadão. Formar apenas para atender às demandas mercadológicas significa fortalecer a globalização hegemônica e afastar as possibilidades de desenvolver um projeto societário que possa romper com o dualismo de classes e minimizar as desigualdades sociais. 
Assim, o desdobramento de uma proposta pedagógica que considere a dinâmica dos processos de globalização pode proporcionar a construção de uma nova identidade para a educação profissional e tecnológica, uma vez que tais processos trazem consigo implicações que podem manter o status quo ou transformar a sociedade. No desafio de contribuir com essa discussão, o presente trabalho tem como objetivo discutir os processos de globalização e analisar suas relações com a educação profissional e tecnológica em uma perspectiva de transformação da sociedade e construção de um mundo igualitário. Para tanto, dividimos o texto em dois momentos. Primeiro, discorremos sobre a dinâmica da globalização e, em seguida, abordamos os processos de globalização (hegemônicos e contra-hegemônicos) focando nas implicações que eles trazem para a educação profissional e tecnológica.
1 A dinâmica da globalização
Após a segunda Guerra Mundial, em meados do século XX, vivenciamos profundas transformações políticas, econômicas e culturais nas relações transnacionais, cunhadas, a partir de então, de globalização. A quebra de barreiras comerciais levou ao crescimento da dependência entre os países, conforme podemos observar pelos principais acordos comerciais realizados (NAFTA[3], UNIÃO EUROPÉIA[4] E MERCOSUL[5]).
As inter-relações entre os países constituem um processo incerto, instável (MAGALHÃES, 2004, p. 11) desigual e não uniforme, motivo pelo qual o que designamos por globalização, na verdade, é um conjunto de relações sociais diferenciadas que levam à existência de vários fenômenos de globalização. “Nestes termos, não existe estritamente uma entidade única chamada globalização; existem, em vez disso, globalizações [...]” (SANTOS, B, 2002, p. 55). Dessa forma, Santos B compreende a globalização como um processo dinâmico e define o modo de produção geral da globalização como:
[...] o conjunto de trocas desiguais pelo qual um determinado artefato, condição, entidade ou identidade local estende a sua influência para além das fronteiras nacionais e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outro artefato, condição, entidade ou identidade rival. (2002, p. 63).
 
Caminhando na mesma perspectiva de que não há um único processo de globalização, Santos M (2011, p. 11) argumenta que a “era globalizada”, tem conduzido o homem a viver em um mundo confuso e cheio de paradoxos. O pensamento dos autores nos mostra que não existe uma globalização genuína, homogênea e uniforme. No entanto, as potências hegemônicas revelam “[...] uma vontade de fundar o domínio do mundo na associação entre grandes organizações [...]” (SANTOS M, 2006, p. 27) para caracterizar a atual fase de expansão do capitalismo como um processo global uniformizado, “mas a realidade dos territórios e as contingências do ‘meio associado’ asseguram a impossibilidade da desejada homogeneização.” (SANTOS M, 2006, p. 27).
Para Santos M, “[...] tudo se mundializa: a produção, o produto, o dinheiro, o crédito, a dívida, o consumo, a política e a cultura. Esse conjunto de mundializações, cada qual sustentado, arrastando, ajudando a impor a outra, merece o nome de globalização.” (2006, p. 134). Nesse sentido, Santos M, define a globalização como “o ápice do processo de internacionalização do mundo capitalista” (2011, p.15).
Marx e Engels corroboram com a ideia de Santos M (2011) ao defenderem que, por meio do “desenvolvimento universal das forças produtivas é possível estabelecer um intercâmbio universal entre os homens, e assim [...] torna cada um deles dependente [...]” (1998, p. 31, grifo dos autores). Segundo Magalhães (2004, p. 64-65), essa percepção mostra que a dependência econômica entre os países pode trazer resultados negativos quando o equilíbrio financeiro é afetado.
Por fim, observamos que não é pertinente definir globalização como um movimento único, pois tendo em vista a sua dinamicidade, ela é melhor compreendida como um conjunto de fatores econômicos, políticos, sociais e culturais que se articulam entre si para garantir a internacionalização do capitalismo através da ideia de um mundo unificado. Dessa articulação, resultam os processos de globalização hegemônicos e contra-hegemônicos, os quais, com suas diferentes características, trazem diversas implicações para a educação profissional e tecnológica brasileira, conforme discutiremos ao longo desse texto.
2 Os processos de globalização
Ao discutirmos a dinâmica da globalização, ressaltamos que se tratava de um processo complexo e que o mesmo é uma etapa do capitalismo da qual não podemos fugir ou ignorar. Como vimos, Santos B (2002) e Santos M (2011) advogam a existência de várias realidades em um mesmo mundo o qual passa por transformações e vive processos distintos em virtude das práticas mundiais, comumente denominadas de globalização. Santos B (2002, p. 56) desenvolve a teoria de que estamos vivendo um sistema mundial em transição, permeado por várias transformações que podem conduzir a um novo sistema mundial. Com isso, podemos nos apoiar nessa transição para construir “[...] um outro mundo, mediante uma globalização mais humana.” (SANTOS M, 2011, p. 13) e solidária na qual o cidadão seja prioridade e o consumo uma consequência. A partir das ideias dos autores, elaboramos o quadro 01 (p. 6) que procura abrigar a multiplicidade dos principais processos de globalização, suas formas, instituições envolvidas e suas implicações para a EPT. No referido quadro, identificamos a existência de dois principais processos de globalização (hegemônicos e contra-hegemônicos) que se manifestam de diferentes maneiras, conforme destacam Santos B (2002) e Santos M (2011). A forma como esses processos se desenvolvem podem fortalecer a hegemonia do capitalismo ou contribuir para a superação dos problemas sociais e emancipação humana.
Nesse movimento, muitas práticas são assumidas e desenvolvidas por pessoas e instituições. O quadro 01 (p. 6) apresenta as instituições educacionais como agentes desenvolvedoras de práticas situadas nos dois principais eixos dos processos de globalização. Isto implica que a escola pode contribuir tanto para a manutenção do status quo, como para promover a transformação da sociedade através da ampliação de sua função social. Essa contradição é natural, pois representa um conflito de interesses da classe dominante e “[...] mostra que é imperioso produzir uma reflexão [...] da globalização [...] de modo a captar a complexidade dos fenômenos que ela envolve e a disparidade dos interesses que neles se confrontam” (SANTOS, B, 2002, p. 54).
Diante desse contexto, a educação pública, por meio da educação profissional e tecnológica, pode desenvolver duas possíveis relações: curvar-se aos desígnios do mercado capitalista e se tornar mais um elemento dentro da lógica do sistema; ou atuar em uma perspectiva contrária à lógica do capitalismo e ser um elemento de transformação social através de práticas emancipadoras[6].
 
Processos
Formas de globalização
Instituições envolvidas
Implicações para EPT
Hegemônicos
- Localismo globalizado;
- Globalismo localizado;
- O mundo tal como nos fazem vê-lo: a globalização como fábula;
- O mundo tal como ele é: a globalização como perversidade.
- Estados;
- Organizações Internacionais;
- Instituições educacionais (manutenção do status quo);
- Instituições financeiras (FMI, BIRD);
- Blocos de comércio regionais;
- Organização Mundial do Comércio (OMC);
- Empresas multinacionais.
- Mercantilização da educação e do conhecimento;
- Desresponsabilização do Estado;
- Formação para atender ao mercado de trabalho (Lei nº 5.692/71[7], Decreto nº 2.208/1997[8]);
- Produção de tecnologias convencionais;
- Comprometimento com o desenvolvimento global;
 
Contra-hegemônicos
- Cosmopolitismo;
- Patrimônio comum da humanidade;
- O mundo como ele pode ser: uma outra globalização.
- Organizações Não Governamentais;
- Movimentos Sociais.
- Redes de sustentabilidade;
- Instituições educacionais (transformação a partir da função social).
- Desenvolvimento da economia solidária;
- Produção e disseminação de tecnologias sociais;
- Comprometimento com o desenvolvimento local;
- Implantação de escolas em locais de baixo PIB.
Quadro 01: processos de globalização hegemônicos e contra-hegemônicos
Fonte: elaboração própria a partir de Santos B (2002, p. 59, 65-70) e Santos M (2006, p. 11-14)
 
2.1 Globalização hegemônica
 
Conforme discutido anteriormente, a globalização configura-se como um processo dinâmico caracterizado por suas complexas transformações e mudanças ocasionadas na vida social dos diferentes povos. O predomínio das características dominantes é realizado através de uma combinação de fatores que vão se propagando e se fortalecendo historicamente manifestando-se de maneiras diversas, conforme discorreremos seguir. 
A primeira forma de globalização hegemônica (ou neoliberal) parte da concepção de Santos B (2002, p. 65) e é denominada de localismo globalizado. Nesta forma de globalização um fenômeno local é difundido globalmente e tem como característica o fato de promover mudanças nos hábitos e costumes das comunidades que sofrem sua influência. Esses impactos produzidos levam à concepção da segunda forma de globalização hegemônica, denominada por Santos B (2002, p. 66) de globalismo localizado que consiste nas implicações ocasionadas localmente em virtude das ações transnacionais.
Continuando a nossa discussão acerca das formas de globalização hegemônica, chegamos, por meio de Santos M (2011, p. 12), à terceira concepção: a globalização como fábula. Nesta perspectiva, o mundo globalizado é apresentado, especialmente pelas práticas dos meios de comunicação e das novas tecnologias, como um mercado global, “capaz de homogeneizar o planeta, quando na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido [...]” (SANTOS M, 2011, p. 12).
A quarta concepção hegemônica é denominada por Santos M (2011, p. 13) de globalização como perversidade. Essa abordagem pode ser entendida como uma consequência da anterior, pois à medida que a globalização é concebida como uma fábula, seus reais desdobramentos se impõem como perversidade junto às classes dominadas.
Segundo Gadotti (2003, p. 4), no campo da educação, esses globalismos se traduzem pela ofensiva neoliberal de promover a mercantilização da educação e do conhecimento através da incorporação dos mecanismos do mercado, impulsionando, assim, a desresponsabilização do Estado com o dever de educar. O autor destaca ainda que as principais propostas do modelo neoliberal podem ser resumidas da seguinte forma: conteúdos mínimos e socialmente necessários, verificados por meio de exames nacionais; redução dos benefícios dos trabalhadores da educação; centralização curricular e pedagógica; descentralização das responsabilidades e municipalização do ensino fundamental e padrões de gestão mercantis da escola.
A globalização neoliberal atribui aos docentes a falta de qualidade da educação e financia uma formação orientada muito mais voltada ao consumismo do que à emancipação do cidadão. Nesse sentido, “o Estado deve abandonar a idéia de igualdade (socialização) para assumir a equidade (atenção para com as diferenças). Considera-se a educação como um serviço e não como um direito.” (GADOTTI, 2003, p. 1). Dessa forma, podemos constatar que a educação, sob a égide da globalização neoliberal, está totalmente submetida à lógica do capitalismo. Atendendo as imposições dos órgãos financeiros externos é fundamental promover a privatização dos serviços públicos para diminuir os gastos e possibilitar que o mercado assuma a oferta do serviço.
No tocante à educação profissional, podemos observar que as políticas neoliberais conduziram o Brasil a promover reformas educacionais pautadas em uma educação instrucionista que pudesse atender às demandas do mercado, a exemplo da Lei nº 5.692/71, que “instituiu a profissionalização universal e compulsória no ensino médio.” (MACHADO,  2011, p. 696). Nesse perspectiva, Gadotti ressalta que o aprendizado na visão instrucionista se restringe à manipulação de equipamentos e acesso à informação e o ensino se reduz a “aplicar uma receita, manejar um repertório de técnicas.” (2003, p. 2).
Postas essas considerações, contextualizamos o aparecimento das instituições educacionais no quadro 01 (p. 6) como possíveis desenvolvedoras de práticas que contribuem para o fortalecimento da globalização hegemônica. No entanto, não podemos permitir que a expansão da rede federal de educação profissional e tecnológica recaia novamente neste processo. Precisamos fortalecer o Estado brasileiro e desenvolver uma proposta de educação pautada no princípio básico da formação humana integral, capaz de promover a emancipação humana, atuando, portanto, em uma perspectiva contra-hegemônica.
Por fim, ressaltamos que a discussão adotada não tem como objetivo levar a uma luta contra a globalização hegemônica, nem tão pouco tentar subsumi-la, mas compreender que um processo de globalização hegemônica pode desencadear um processo contra-hegemônico, capaz de trazer novas perspectivas para a educação profissional e tecnológica.
2.1.1 A influência do Consenso de Washington para a Educação Profissional e Tecnológica Brasileira
Segundo Gadotti, as práticas neoliberais no campo da educação iniciaram-se com a experiência neoliberal de Pinochet[9] na década de 1970, mas se intensificaram nos últimos anos em todos os países da América Latina. Isso ocorre em virtude das interferências das agências financeiras que pressionam os países endividados a executarem suas políticas de ajuste e, portanto, acabam definindo “as matrizes das propostas de reforma educativa [...]” (2003, p. 4)
Para compreendermos esse processo de desestruturação e reestruturação no campo educacional, é importante considerar o Consenso de Washington[10] que, segundo Santos B (2002, p. 27), afetou todas as dimensões da globalização e é responsável pelas suas características dominantes[11]. Assim, o referido Consenso é apontado como um dos principais elementos no núcleo da globalização hegemônica, visto que a partir dele surgiram regras gerais a serem seguidas, reforçando e impulsionando as políticas neoliberais. Isso incluía a reformulação das políticas de concessão de crédito para os países que necessitassem de amparo financeiro junto às agências internacionais (FMI, BIRD).
Como podemos observar, “[...] as operações do modelo de desenvolvimento neoliberal, envolvem [...] uma destruição institucional e normativa [...] para além do papel do Estado na economia [...]” (SANTOS B, 2002, p. 27).  Com isso, esse Consenso tornou-se determinante nas políticas educacionais ao imprimir, entre as regras básicas, a necessidade de reduzir os gastos públicos e consequentemente os investimentos na educação pública. No campo da educação profissional e tecnológica, podemos apontar um maior aprofundamento na divisão entre a formação prática e a formação propedêutica, pois as exigências do Consenso impulsionaram “as reformas educacionais dirigidas para a formação profissional mais do que para a construção de cidadania.” (SANTOS B, 2002, p. 38). 
Podemos citar como reflexo dessas exigências a Lei nº 9394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB) e o Decreto nº 2.208/1997, ambos promulgados no governo Fernando Henrique Cardoso, o principal agenciador do neoliberalismo no Brasil. Os princípios mercadológicos se fazem presentes nestas legislações na medida em que podemos constatar uma focalização na formação baseada na construção de habilidades e competências e a separação entre ensino profissional e ensino médio. Assim, há uma adequação da educação às exigências do mercado e ela deixa de ser um direito e passa a ser um serviço, regulamentado e fortalecido pelo próprio Estado.
2.2 Globalização contra-hegemônica
Discutimos anteriormente as formas de globalização hegemônica e suas implicações para a sociedade, com direcionamento para a educação profissional. Na sequência, abordaremos o conceito de globalização contra- hegemônica designado por Santos B, como:
o conjunto vasto de redes, iniciativas, organizações e movimentos que lutam contra as consequências econômicas, sociais e políticas da globalização hegemônica e que se opõem às concepções de desenvolvimento mundial a esta subjacentes, ao mesmo tempo que propõem concepções alternativas. (2005, p. 7)
Portanto, configura-se como uma globalização de resistência, mas também de criação de alternativas às formas de manifestação contra-hegemônica. Destarte, para que esse novo discurso democrático possa obter êxito é fundamental a atuação de muitos atores, conforme demonstra o quadro 01 (p. 6): ONGs; movimentos sociais; redes de sustentabilidade e instituições educacionais.
Santos B (2002) apresenta duas formas de globalização que podem desenvolver ações de resistência à globalização hegemônica e aos seus desdobramentos na sociedade. A primeira forma é o cosmopolitismo que se manifesta pela “[...] resistência de Estados-nação, regiões, classes ou grupos sociais vitimizados pelas trocas desiguais de que se alimentam os localismos globalizados e os globalismos localizados.” (SANTOS, B 2002, p. 67, grifo nosso).
A segunda forma de globalização contra-hegemônica proposta por Santos B é o patrimônio comum da humanidade compreendido como as “[...] lutas transnacionais pela proteção e desmercadorização de recursos, entidades, artefatos, ambientes considerados essenciais para a sobrevivência digna da humanidade e cuja sustentabilidade só pode ser garantida à escala planetária.” (2002, p. 70).
A terceira forma de globalização contra-hegemônica, vem do pensamento de Santos M (2011) e complementa os preceitos do cosmolitismo, pois também atua na criação de uma cultura de união e resistência às ações hegemônicas da globalização neoliberal. Para tal, o autor propõe a construção de uma outra globalização através da qual o mundo poderia ser diferente, humanizado, solidário e menos capitalista.
Mas, para que essa proposta possa obter êxito, percebemos a necessidade de uma reestruturação no campo das relações sociais “[...] de modo a promover o interesse em alianças translocais e a criar capacidades para que estas possam efetivamente ter lugar e prosperar.” (SANTOS B, 2002, p. 74).
Um elemento bastante convergente na constituição desse novo mundo está na educação, pois a escola também pode se propor a “[...] educar para uma outra globalização, educar para a humanidade, educar para uma sociedade sustentável.” (GADOTTI, 2003, p. 7). Assim, diante da conjuntura atual de expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica[12], a EPT pode firmar-se como uma entidade comprometida com a emancipação do cidadão e a transformação da sociedade, ao deslocar suas ações educacionais para o fortalecimento da globalização contra-hegemônica. A Lei nº 11.892, de 29/12/2008 que instituiu a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e criou os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, destaca que, dentre outras finalidades e características, os Institutos devem:
 
- Ofertar educação profissional e tecnológica, formando e qualificando cidadãos com vistas na atuação profissional nos diversos setores da economia, com ênfase no desenvolvimento socioeconômico local, regional e nacional;
- Desenvolver a educação profissional e tecnológica como processo educativo e investigativo de geração e adaptação de soluções técnicas e tecnológicas às demandas sociais e peculiaridades regionais; (2008, p. 4 grifo nosso)
 
Para tanto, a implantação dos campi e a oferta dos cursos dos institutos federais, são feitas por eixos tecnológicos, considerando a vocação da região onde os mesmos serão instalados. Pacheco reitera que o Instituto Federal aponta para um tipo de instituição, identificada e pactuada com um novo projeto de sociedade.
Trata-se de um projeto progressista que entende a educação como compromisso de transformação e de enriquecimento de conhecimentos objetivos capazes de modificar a vida social e de atribuir-lhe maior sentido e alcance no conjunto da experiência humana, proposta incompatível com uma visão conservadora de sociedade. Trata-se, portanto, de uma estratégia de ação política e de transformação social. (2011, p. 17, grifo nosso)
 
Observamos assim que, ao desenvolver ações que favorecem o desenvolvimento local da região onde os campi estão implantados, reforçamos o papel da educação como instrumento de transformação e libertação das classes dominadas, pois segundo Santomé (2003, p. 239) as instituições escolares não funcionam sempre como reprodutoras e dispõem de “uma certa autonomia que permite uma ação contra-hegemônica”. Diante do exposto, percebemos que a EPT emerge como possibilidade de desenvolver uma educação humana integral pautada no potencial humano e não apenas no mercado, fazendo jus à sua função social e possibilitando o fortalecimento da globalização contra-hegemônica.
 
Considerações Finais
O nosso trabalho partiu da compreensão da dinamicidade da globalização e seguiu discutindo suas principais formas de manifestação, bem como suas implicações para a educação profissional e tecnológica brasileira. Observamos que os dois principais processos (hegemônicos e contra-hegemônicos) trazem consigo diferentes perspectivas para o desenvolvimento da função social da escola. O projeto hegemônico procura fazer uso da educação como instrumento de fortalecimento dos interesses do capitalismo e da classe dominante. Por outro lado, a globalização contra-hegemônica apresenta uma proposta de rompimento com o modelo dominante ao propor o desenvolvimento de ações que levem os indivíduos a repensarem a sociedade em que estão inseridos.
A educação profissional e tecnológica, historicamente, teve uma tendência a fortalecer a globalização hegemônica em virtude dos direcionamentos políticos que lhes foram dados.  Como marca desse movimento, identificamos a constante preocupação em formar mão de obra para atender ao mercado de trabalho, impulsionada por meio de dispositivos legais (Lei nº 5.692/71, Decreto nº 2.208/1997).
Todavia, a educação profissional e tecnológica tem passado, nos últimos anos, por um processo de mudanças significativas em virtude da expansão e interiorização da Rede Federal. Ao ampliar o número de escolas considerando a vocação econômica e as características locais, o Estado brasileiro tem proporcionado não apenas mais acesso à educação, mas ampliado as possibilidades de desenvolver uma lógica de formação profissional contrária ao fortalecimento do capitalismo e favorável à superação das desigualdades sociais.
Portanto, a educação profissional e tecnológica, sob a perspectiva da globalização contra-hegemônica, configura-se como um rompimento com os interesses da globalização hegemônica, pois está imbuída de propósitos cosmopolitas e compromissada com a construção de um mundo mais igualitário. No entanto, a concretização dessa proposta não é simples, pois depende do envolvimento de diversos atores e trás implicações bem diferentes daquelas idealizadas pelas políticas hegemônicas.    
 
Referências Bibliográficas
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Gadotti, Moacir. Globalização e educação: ideias para um debate. In: Fórum Social Mundial Temático: democracia, derechos, guerras y narcotráfico. Cartagena de Indias, Colômbia. 16 a 20 jun/2003. Disponível em: <http://www.virtual.ufc.br/solar/aula_link/lmat/A_a_H/didatica_I/aula_01-1670/imagens/03/globalizacao-educacao.pdf> Acesso em 10 abr. 2014.
 
Machado, Lucília Regina de Souza . O desafio da formação dos professores para a EPT e PROEJA. EDUC. SOC., Campinas, v. 32, n. 116, p. 689-704, jul.-set. 2011. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/es/v32n116/a05v32n116.pdf > Acesso em 13 mar. 2014. 
 
Magalhães, Fernando (2004). Tempos pós-modernos: a globalização e as sociedades pós-industriais. São Paulo: Cortez.
 
Marx, Karl; Engels, Friedrich. Ideologia alemã (1998). São Paulo : Martins Fontes.
 
Pacheco, Eliezer (2011). Institutos Federais: uma revolução na educação profissional e tecnológica. São Paulo: Moderna.
 
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Santos, Boaventura de Souza. A crítica da governação neoliberal: o Fórum Social Mundial como política e legalidade cosmopolita subalterna. REVISTA CRÍTICA DE CIÊNCIAS SOCIAIS, n. 72, p. 7-44, out/2005. Quadrimestral. Disponível em: <http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/pdfs/governacao_neoliberal_RCCS72.PDF> Acesso em: 27 abr. 2014
 
Santos, Milton (2011). Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: BestBolso.
 
Santos, Milton (2006). A natureza do espaço: técnica e tempo. Razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da USP.
 

[1] As discussões deste documento fazem parte da pesquisa que estamos desenvolvendo no Programa de Pós Graduação em Educação Profissional - PPGEP do IFRN, podendo estar presentes no texto da nossa dissertação.
[2] Processo iniciado em 2003 no governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva.
[3] Acordo de Livre Comércio da América do Norte (do inglês, North American Free Trade Agreement), criado em 1988.
[4] Denominado inicialmente de Mercado Comum Europeu (MCE), posteriormente mudou (1993) para Comunidade Econômica Europeia (CEE) Maastricht (assinado em 1991) quando entrou em vigor.
[5] Mercado Comum do Sul, criado em 1991, a partir do Tratado de Assunção.
[6] Ressaltamos que este processo não é opcional, pois ele pode, muitas vezes, ser determinado pelas políticas neoliberais incorporadas e regulamentadas pelo próprio Estado.
[7] Revogada pela Lei nº 9.394, de 20/12/1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5692.htm> Acesso em 20 jun. 2014
[8] Revogado pelo Decreto nº 5.154, de 23/07/2014. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D2208.htm> Acesso em 20 jun. 2014
[9] Sistema econômico que o Chile adotou após o golpe militar de Pinochet em 11 de setembro de 1973, tendo como base as ideias de Milton Friedman.
[10] Realizado em 1989 pelo governo dos Estados Unidos que se reuniu com vários economistas, representantes das agências financeiras e de vários países para debater e propor novas políticas econômicas para a América Latina.
[11] Tais características constituem as formas de globalização hegemônica ou neoliberal e se encontram condensadas no quadro 01 (p. 6).
[12] Os governos Lula e Dilma entregaram 214 escolas técnicas ao Estado brasileiro nos últimos 11 anos, chegando atualmente a 354 unidades, com previsão de entrega até o final de 2014 de mais 208 novas escolas, totalizando 562 escolas no Brasil. Fonte: <http://redefederal.mec.gov.br/expansao-da-rede-federal> Acesso em 21 jun. 2014.