sábado, 29 de novembro de 2014

Sim, nós trabalhamos! Não, não somos desinformados

Após a reeleição da presidente Dilma, assistimos nas redes sociais a um espetáculo de preconceito contra nós, nordestinos. Eu me recusei a fazer qualquer tipo de comentário, pois entendo que a melhor resposta à ignorância é o silêncio. Assim o fiz. No entanto, depois de duas semanas ainda permanece em mim um sentimento de que eu deveria sair em defesa do nordeste. Ontem, 09/11/2014, ao escutar a música Nordeste Independente na voz de Elba, resolvi que precisava escrever algo que ajudasse a desfazer a imagem de que nós estamos acomodados com o Bolsa Família e, portanto, não trabalhamos.
Aqui no nordeste o dia também começa cedo, no silêncio da madrugada. Por volta das 3:30h o vaqueiro tradicional acorda com o cantar do galo; vai ao curral, “peia” a vaca para a ordenha, “tira” o leite e depois o vende, geralmente de bicicleta, de porta em porta. No retorno, logo antes das 8h, o gado está à espera para ser levado ao pasto. Os filhos até poderiam ajudar, mas a essa hora estão estudando em alguma faculdade ou instituto federal. Sim! Faculdade! Agora com a política de expansão do ensino para as regiões de baixo PIB, temos acesso ao conhecimento como nunca tivemos antes. E ainda tem gente que diz sermos menos informados. Acho que a lógica é inversa. A imagem do nordestino ignorante, comedor de palma e de calango, construída e mantida ao longo de décadas, foi desfeita. Nos últimos 12 anos, tivemos governos que nos deu o devido valor, atenção e respeito.  Então, é preciso conhecer melhor o nordeste atual antes de sair por aí dizendo que somos um povo “menos informado” ou “bovino”. Não precisamos ir à Itália para saber de sua notória importância para as artes, mas acho que os algozes brasileiros que por lá vivem, precisam conhecer o nordeste para ver sua cultura e reconhecer sua importância para resto do Brasil.  Não votamos porque somos beneficiários do bolsa família. Não! Pensar assim é, realmente, reduzir e subestimar a inteligência e sabedoria do povo nordestino. Nós votamos em quem representa melhor os nossos interesses. O nordeste cresce e se desenvolve a cada dia, e nós, obviamente sentimos isso. Nós votamos muito bem! Abandonamos o coronelismo porque aprendemos a votar! Mas e o bolsa família? Ah, o bolsa família é o meio pelo qual, parte da sociedade brasileira, encontrou para criar um “novo” estigma do povo nordestino. Se antes nossa imagem era de um povo magrinho, sofredor e morto de fome, agora querem nos atribuir a imagem de acomodados, de vagabundos e de ignorantes. Diante da incapacidade de reconhecerem os avanços proporcionados pelos governos do PT, apelam para o expediente do xenofobismo e divisão cultural do país.
Mas nós somos, antes de tudo fortes, como diria Euclides da Cunha. Enquanto as pessoas destilam comentários infelizes nas redes sociais, nosso feijão verde segue cozinhando com aquele cheiro de coentro! Ah, nosso feijão agora é cozinhado em fogão a gás. Isso! O mesmo que era usado nas outras regiões do país. Fogão à lenha agora é uma novidade que deixa a buchada de bode bem mais gostosa. Por isso, de vez em quando recorremos a ele! Depois de deixar o gado no pasto, o sertanejo retorna para casa e às 11h, já é hora de almoçar. Na mesa, temos cuscuz, feijão verde, arroz de leite, macaxeira, carne de sol, e claro, a rapadura que não podia faltar para a sobremesa. É uma comida diferente do prato francesinha servido no Porto e do Vitello tonnato da Itália. Mas será que essas comidas nos tornam menos inteligentes? Para os que desfrutam de uma vida confortável fora do país e desconhecem a cultura nordestina, tudo é possível. Talvez nem saibam da existência de grandes nomes como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Ariano Suassuna, José de Alencar, Adolfo Caminha, entre outros.
Após o almoço é hora de descansar rapidamente. Um breve cochilo embaixo de uma mangueira ou mesmo no chão de casa para sentir um pouco o frio do cimento. Aí o telefone celular toca. Sim! O telefone celular, nós usamos esse aparelho desde 1994. O filho liga para avisar que não almoçará em casa, pois precisa fazer alguns experimentos no laboratório de análises de solos. A atividade faz parte do projeto de pesquisa desenvolvido na faculdade. Ah, ele recebe uma bolsa de pesquisa paga pela mesma fonte que destina recursos às universidades do sul e sudeste.  Uma hora da tarde! Hora de cortar o capim do gado. Sim, aqui não são trezes horas. É uma hora mesmo. Antes disso, é preciso ir deixar a esposa na cidade, pois ela está fazendo um curso do PRONATEC.
Com um chapéu de palha, foice na mão e muita disposição é preciso enfrentar o sol e cortar o capim. Com a forrageira ligada ele é moído e misturado ao resíduo e farelo para garantir a produção do leite das vacas. Ao retornar do pasto, o gado desfruta de suas gamelas cheias e o sertanejo se envaidece ao ver aquela cena. Perto das cinco horas da tarde, as vacas precisam ser separadas dos bezerros em currais distintos, senão ficamos sem leite no dia seguinte. Hora de desmamar os bezerros! A essa hora a mulher já passou algumas mensagens pelo whatsapp chamando-o para pegá-la na cidade. Sim, também dispomos de internet e rede sem fio. É bem verdade que a transmissão via rádio não é boa, mas o sertanejo precisa fazer seu curso, de Educação do Campo, à distância pela Universidade Aberta do Brasil. No fim de semana não tem jeito. O filho se reveza com ele nas tarefas.
Mais um dia que chega ao fim e “quando batem as seis horas, de joelhos sobre o chão, o sertanejo reza a sua oração”. Após a “hora do anjo”, com a família reunida, fazemos a última refeição do dia. Como opção, temos uma tapioca de coco com queijo coalho, batata doce com leite, coalhada ou cuscuz com leite e rapadura. Depois, escutamos a tradicional cantoria pelo rádio e perto das oito horas, ao invés de assistir ao jornal nacional, vamos navegar na internet. Os comentários no facebook dizem que somos desinformados, vagabundos, acomodados e dependentes do programa bolsa família. Encaramos isso com muita tranquilidade e lamentamos total desconhecimento da nossa cultura. Nós resistimos diariamente ao clima, às adversidades naturais da região, superamos bravamente a seca e amamos a diversidade cultural do nosso país. Mas não podemos deixar que recriem uma nova imagem negativa do nosso povo. Não podemos! Por isso senti a necessidade de escrever esse texto, pois entendo que a valorização do nosso povo passa pela valorização de cada gota de suor derramado no sol escaldante do nordeste. Sim, nós trabalhamos! E muito! Não, não somos desinformados. Somos tão informados que ao invés de discutir os 0,4% do PIB destinados à descentralização de renda por meio do bolsa família, preferimos lutar para diminuir os 42% do PIB destinados ao pagamento de juros e amortização da dívida interna.

Posto isso, é hora de dormir e esperar um novo dia!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eleitor, saia da caverna!

O mito da caverna é uma metáfora muito conhecida do filósofo grego Platão e faz remissão à importância do conhecimento para a compreensão do mundo à luz da razão.  O texto do livro A República narra um mito em que pessoas estão presas a uma corrente dentro de uma caverna e passam a vida olhando projeções de sombras geradas por uma fogueira. Elas analisam as cenas do dia a dia com base nas projeções e não percebem a realidade.
Conheci esse mito em 2003 na disciplina de Filosofia com a profa. Magnólia Rocha e hoje (11/09/14) ele me veio à mente durante o voo de Fortaleza-Lisboa. Ao entrar na aeronave sentei ao lado de um professor universitário italiano, sociólogo que reside em Portugal há anos. Assim, não tivemos problemas de comunicação. Não imaginei que fôssemos falar da política brasileira, mas ele iniciou o assunto e, óbvio, eu entrei na discussão. Inicialmente optei por ouvi-lo. Como ele já havia morado no Brasil por alguns anos (especificamente nos governos FHC) tinha uma grande compreensão da realidade do País. Em seu discurso o prof. ressalta como o Brasil se tornou extremamente respeitado nos últimos anos no contexto das relações internacionais. Um país em desenvolvimento que se tornou referência mundial. Acrescentou ainda a relevância do Brasil na integração e fortalecimento dos países da América Latina. Reiterou a autonomia do Brasil em relação aos EUA, em suas palavras: “o Brasil não baixa mais a cabeça para os norte-americanos”.  Finalizou comparando a situação atual do Brasil com a Europa no contexto da crise mundial. Enquanto os países europeus seguem desempregando, o Brasil permaneceu firme gerando emprego e preservando os existentes. Ele citou índices de desempregos em vários países. Dentre eles, lembro-me do caso da Espanha. Segundo o professor, 50% dos jovens espanhóis estão desempregados (achei esse post que complementa a informação: http://www.fio.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1969:europa-tem-238-milhoes-de-desempregados-487-dos-jovens-espanhois-estao-sem-emprego&catid=31:noticias&Itemid=46).
Foi nesse momento que o mito da caverna me veio à mente. Essas informações eu já sabia, mas o interessante é que eu estava diante de uma pessoa que não é governo, não é petista e não é sequer cidadão brasileiro. Então eu pensei: esse Brasil não é o mesmo que é difundido pelos refletores da mídia brasileira. Muitos brasileiros, infelizmente, estão presos na caverna e não conseguem ver a realidade. Continuam julgando a política brasileira apenas pelas imagens negativas projetadas pelos holofotes da classe dominante.
Se você está lendo esse texto e só vê desgraça no Brasil; acredita que o governo do PT acabou com o país; que a inflação está alta; que a Petrobras está falindo e que corrupção aconteceu somente nos governos do PT, informo-lhe que você está dentro caverna. E, provavelmente, deve se sentir irritado por eu dizer isso, certo? Você continua na caverna! Faz parte do mito de Platão: eu preciso ser desacreditado para que você continue confiando nas projeções e permaneça na caverna sem conhecer a realidade.
Em época de eleição, permanecer na caverna é um grande risco ao futuro do país, porque a contemplação das imagens projetadas nos fará realizar as escolhas que decidirão a eleição. Portanto, eleitor, ainda há tempo, saia da caverna, conheça a realidade, compare fatos, avalie as propostas e opte por um Brasil com MAIS MUDANÇAS.
Se você já saiu da caverna, volte lá e mostre aos seus colegas o que viu lá fora! Mas, lembre-se: você será acusado de petralhar! 



João Paulo de Oliveira, Vila Real - Portugal

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

JOVENS, NÃO PISEM NO TOMATE!

JOVENS, NÃO PISEM NO TOMATE!

Outro dia encontrei um desses jovens que tem um discurso pronto acerca do governo do PT, especialmente da Presidente Dilma. Interessante como a mídia conseguiu fazer com que todos tenham o mesmo discurso. E pior: fez acreditar que não é discurso replicado, mas opinião. Os mesmos itens, as mesmas questões e quase sempre vazias, sem argumento. Os jovens que hoje tem seus 24, 23 ou 22 anos, entre 2000 e 2002, tinham 10 anos de idade. Com essa idade eu não tinha noção de mundo e sequer saberia fazer uma avaliação política. Eu não entenderia porque era preciso racionar energia. Não imaginava sequer que poderia ter um ônibus para me levar à escola. Livros gratuitos? Bom isso não estava sequer nos meus pensamentos. Faculdade? Escolas técnicas? Ciência sem Fronteiras? PRONATEC? ENEM? FIES? PROUNI? Com 10 anos eu não saberia mensurar a relevância de tais ações. Ocorre que, entre 1999 e 2000, eu não tinha 10 anos. Estava com a mesma idade dos jovens do ensino médio de hoje. Então, eu já era capaz de fazer minhas avaliações.
Nesse período, o ENEM acontecia apenas em cidades grandes, geralmente nas capitais dos Estados. Não tinha livro didático gratuito no Ensino Médio. Quem quisesse deveria comprar. Acesso à internet? Apenas discada e quem tinha eram pessoas de grandes posses. Ingresso à faculdade? Bom esse era um grande desafio, pois as vagas eram muito reduzidas. Além disso, os centros universitários ficavam muito distantes. Escolas técnicas? Nunca ouvi falar... E acredite, no período que fiz o Ensino Médio (1999-2000) aconteceram vários problemas no Brasil. A venda da Petrobras entrou em discussão; havia inflação?, sim havia! Corrupção? Claro que sim, mas somente alguns escândalos foram parar na capa da Veja. Se não acredita, basta buscar no acervo digital. Mas não envolviam o presidente da República! Envolvia sim!
Então, eis que hoje (2014) encontro um jovem com seus 22 anos. Faz seu curso em Universidade particular com sua bolsa integral de 100% pelo PROUNI. Falamos sobre política e pergunto-lhe sobre suas pretensões. Esperava que ele fosse me responder que iria votar na salvadora da pátria, no anjo da anunciação da boa e “nova” política brasileira. Ele me disse que iria votar em Aécio. Até aí tudo bem. Afinal, estamos em uma democracia. Então pedi que me explicasse o porquê da sua aproximação ideológica com o referido candidato. Eis que escuto: - Marina Silva é PT do mesmo jeito e a Dilma e o Lula acabaram com o país. Então eu pensei: vivemos em países diferentes. Para seguir na discussão, porque esse ainda dava para conversar, pedi que elencasse alguns motivos pelos quais considera o governo federal um desastre: Eis a lista: Construção de um porto em Cuba; Caos na saúde; Falta de segurança; inflação.
Então, procurei explicar alguns itens. Retruquei que o porto foi um financiamento do BNDES para uma empresa brasileira construí-lo com todos os trâmites exigidos em qualquer operação financeira. O único problema foi o fato de ser em Cuba. Só por isso a mídia repercutiu tanto esse assunto. Se fosse no Afeganistão talvez tivesse repercutido menos. Sobre a saúde eu disse que ela está longe de ser ideal, mas que além de ser uma responsabilidade compartilhada (sim, isso mesmos, o Brasil é um ente federado!) temos grandes conquistas (não elenquei na hora, mas para lembrar: SAMU, UPA’s, Mais Médicos, Brasil Sorridente, Farmácia Popular). Acerca da falta de segurança eu argumentei que realmente é um grande problema, mas que um bom modelo seria promover a integração entre os Estados e Municípios e, consequentemente, entre as diferentes corporações policiais. Inclusive o Governo Federal criou em agosto de 2014, a Coordenadoria Integrada de Segurança Pública do Nordeste para combater ações criminosas na região.  Sobre a inflação eu lhe disse que não sei avaliar, visto que não conheço os conceitos básicos da economia. Então o jovem e inteligente rapaz me disse: - não é preciso saber disso para reconhecer que há inflação. Basta ver os preços dos alimentos. Olha o preço do tomate! Sobe todos os dias! Eu pensei antes de responder e disse-lhe: - Bom, se você quer medir a inflação pelo preço do tomate vamos lá. Eu não entendo de inflação, mas de tomate sim. Realmente há mais de um ano houve oscilações no preço. Mas como eu compro toda semana e consumo todos os dias eu te digo uma coisa: se o tomate é seu único parâmetro, não há inflação. Ele parou a argumentação, mas continuou achando que estava certo, mesmo tendo pisado no tomate.
Percebi então que eu estava diante de uma pessoa que pensa ser muito crítica, mas que na verdade repete um discurso, sem argumentos ou ainda sem compreensão dos fatos. Um jovem que diz haver inflação, apenas porque ouviu dizer que o tomate, que seus pais compram tem variações de preço. Se ele nem se dá ao trabalho de saber o que está dizendo, imagine buscar compreender seu contexto de 10 anos atrás. Mas ele decidirá o futuro dos próximos 4 anos. O que é preocupante!
Então, você que está no laboratório da sua escola com acesso à banda larga compartilhando nas redes sociais, fora Dilma!, PT não me representa! Você que está sentado na sua cadeira comissionada da prefeitura porque pediu votos para o prefeito e quer acabar com a corrupção. Você que está nos Estados Unidos como cidadão brasileiro, participando do Ciência sem Fronteiras e achando que o Brasil não presta. Você que estuda em uma escola técnica há 30km da sua casa e reclama que está faltando uma cadeira. Você que ingressou pelo sistema de cotas e diz que a Dilma não te representa. Você que está insatisfeito com o atraso das obras de transposição do rio São Francisco, mas não sabe sequer os Estados que serão beneficiados. Você que estuda em uma Universidade construída no governo do PT e acha que ela está sucateada; Você que tem uma bolsa auxílio alimentação/moradia e reclama que o valor é baixo; Você que recebe uma bolsa de mestrado/doutorado, mas é contra o bolsa família; Você que conseguiu emprego nos últimos anos e acha que o Brasil está mal: cuidado para não pisar no tomate nessas eleições. Mas se ainda assim o fizer, saiba que seu pé ficará sujo por 4 anos.


João Paulo de Oliveira