Após a
reeleição da presidente Dilma, assistimos nas redes sociais a um espetáculo de
preconceito contra nós, nordestinos. Eu me recusei a fazer qualquer tipo de
comentário, pois entendo que a melhor resposta à ignorância é o silêncio. Assim
o fiz. No entanto, depois de duas semanas ainda permanece em mim um sentimento
de que eu deveria sair em defesa do nordeste. Ontem, 09/11/2014, ao escutar a
música Nordeste Independente na voz
de Elba, resolvi que precisava escrever algo que ajudasse a desfazer a imagem
de que nós estamos acomodados com o Bolsa Família e, portanto, não trabalhamos.
Aqui no
nordeste o dia também começa cedo, no silêncio da madrugada. Por volta das
3:30h o vaqueiro tradicional acorda com o cantar do galo; vai ao curral, “peia”
a vaca para a ordenha, “tira” o leite e depois o vende, geralmente de bicicleta, de porta em porta. No retorno, logo antes das 8h, o gado está à espera para ser levado ao pasto. Os filhos até poderiam ajudar, mas a essa hora estão estudando
em alguma faculdade ou instituto federal. Sim! Faculdade! Agora com a política
de expansão do ensino para as regiões de baixo PIB, temos acesso ao
conhecimento como nunca tivemos antes. E ainda tem gente que diz sermos menos
informados. Acho que a lógica é inversa. A imagem do nordestino ignorante,
comedor de palma e de calango, construída e mantida ao longo de décadas, foi
desfeita. Nos últimos 12 anos, tivemos governos que nos deu o devido valor,
atenção e respeito. Então, é preciso
conhecer melhor o nordeste atual antes de sair por aí dizendo que somos um povo
“menos informado” ou “bovino”. Não precisamos ir à Itália para saber de sua
notória importância para as artes, mas acho que os algozes brasileiros que por
lá vivem, precisam conhecer o nordeste para ver sua cultura e reconhecer sua
importância para resto do Brasil. Não
votamos porque somos beneficiários do bolsa família. Não! Pensar assim é,
realmente, reduzir e subestimar a inteligência e sabedoria do povo nordestino.
Nós votamos em quem representa melhor os nossos interesses. O nordeste cresce e
se desenvolve a cada dia, e nós, obviamente sentimos isso. Nós votamos muito
bem! Abandonamos o coronelismo porque aprendemos a votar! Mas e o bolsa
família? Ah, o bolsa família é o meio pelo qual, parte da sociedade brasileira,
encontrou para criar um “novo” estigma do povo nordestino. Se antes nossa
imagem era de um povo magrinho, sofredor e morto de fome, agora querem nos
atribuir a imagem de acomodados, de vagabundos e de ignorantes. Diante da
incapacidade de reconhecerem os avanços proporcionados pelos governos do PT,
apelam para o expediente do xenofobismo e divisão cultural do país.
Mas nós somos,
antes de tudo fortes, como diria Euclides da Cunha. Enquanto as pessoas
destilam comentários infelizes nas redes sociais, nosso feijão verde segue
cozinhando com aquele cheiro de coentro! Ah, nosso feijão agora é cozinhado em
fogão a gás. Isso! O mesmo que era usado nas outras regiões do país. Fogão à
lenha agora é uma novidade que deixa a buchada de bode bem mais gostosa. Por
isso, de vez em quando recorremos a ele! Depois de deixar o gado no pasto, o
sertanejo retorna para casa e às 11h, já é hora de almoçar. Na mesa, temos
cuscuz, feijão verde, arroz de leite, macaxeira, carne de sol, e claro, a
rapadura que não podia faltar para a sobremesa. É uma comida diferente do prato
francesinha servido no Porto e do Vitello tonnato da Itália. Mas será que essas
comidas nos tornam menos inteligentes? Para os que desfrutam de uma vida
confortável fora do país e desconhecem a cultura nordestina, tudo é possível. Talvez
nem saibam da existência de grandes nomes como Jorge Amado, Graciliano Ramos,
Raquel de Queiroz, Ariano Suassuna, José de Alencar, Adolfo Caminha, entre
outros.
Após o almoço
é hora de descansar rapidamente. Um breve cochilo embaixo de uma mangueira ou
mesmo no chão de casa para sentir um pouco o frio do cimento. Aí o telefone
celular toca. Sim! O telefone celular, nós usamos esse aparelho desde 1994. O
filho liga para avisar que não almoçará em casa, pois precisa fazer alguns
experimentos no laboratório de análises de solos. A atividade faz parte do
projeto de pesquisa desenvolvido na faculdade. Ah, ele recebe uma bolsa de
pesquisa paga pela mesma fonte que destina recursos às universidades do sul e
sudeste. Uma hora da tarde! Hora de
cortar o capim do gado. Sim, aqui não são trezes horas. É uma hora mesmo. Antes
disso, é preciso ir deixar a esposa na cidade, pois ela está fazendo um curso
do PRONATEC.
Com um chapéu
de palha, foice na mão e muita disposição é preciso enfrentar o sol e cortar o
capim. Com a forrageira ligada ele é moído e misturado ao resíduo e farelo para
garantir a produção do leite das vacas. Ao retornar do pasto, o gado desfruta
de suas gamelas cheias e o sertanejo se envaidece ao ver aquela cena. Perto das
cinco horas da tarde, as vacas precisam ser separadas dos bezerros em currais
distintos, senão ficamos sem leite no dia seguinte. Hora de desmamar os
bezerros! A essa hora a mulher já passou algumas mensagens pelo whatsapp chamando-o para pegá-la na
cidade. Sim, também dispomos de internet e rede sem fio. É bem verdade que a
transmissão via rádio não é boa, mas o sertanejo precisa fazer seu curso, de
Educação do Campo, à distância pela Universidade Aberta do Brasil. No fim de
semana não tem jeito. O filho se reveza com ele nas tarefas.
Mais um dia
que chega ao fim e “quando batem as seis horas, de joelhos sobre o chão, o
sertanejo reza a sua oração”. Após a “hora do anjo”, com a família reunida, fazemos
a última refeição do dia. Como opção, temos uma tapioca de coco com queijo coalho,
batata doce com leite, coalhada ou cuscuz com leite e rapadura. Depois,
escutamos a tradicional cantoria pelo rádio e perto das oito horas, ao invés de
assistir ao jornal nacional, vamos navegar na internet. Os comentários no facebook dizem que somos desinformados,
vagabundos, acomodados e dependentes do programa bolsa família. Encaramos isso
com muita tranquilidade e lamentamos total desconhecimento da nossa cultura. Nós
resistimos diariamente ao clima, às adversidades naturais da região, superamos
bravamente a seca e amamos a diversidade cultural do nosso país. Mas não
podemos deixar que recriem uma nova imagem negativa do nosso povo. Não podemos!
Por isso senti a necessidade de escrever esse texto, pois entendo que a
valorização do nosso povo passa pela valorização de cada gota de suor derramado
no sol escaldante do nordeste. Sim, nós trabalhamos! E muito! Não, não somos
desinformados. Somos tão informados que ao invés de discutir os 0,4% do PIB
destinados à descentralização de renda por meio do bolsa família, preferimos
lutar para diminuir os 42% do PIB destinados ao pagamento de juros e
amortização da dívida interna.
Posto isso, é
hora de dormir e esperar um novo dia!