JOVENS, NÃO PISEM NO TOMATE!
Outro dia
encontrei um desses jovens que tem um discurso pronto acerca do governo do PT,
especialmente da Presidente Dilma. Interessante como a mídia conseguiu fazer
com que todos tenham o mesmo discurso. E pior: fez acreditar que não é discurso
replicado, mas opinião. Os mesmos itens, as mesmas questões e quase sempre
vazias, sem argumento. Os jovens que hoje tem seus 24, 23 ou 22 anos, entre
2000 e 2002, tinham 10 anos de idade. Com essa idade eu não tinha noção de
mundo e sequer saberia fazer uma avaliação política. Eu não entenderia porque
era preciso racionar energia. Não imaginava sequer que poderia ter um ônibus
para me levar à escola. Livros gratuitos? Bom isso não estava sequer nos meus
pensamentos. Faculdade? Escolas técnicas? Ciência sem Fronteiras? PRONATEC? ENEM?
FIES? PROUNI? Com 10 anos eu não saberia mensurar a relevância de tais ações. Ocorre
que, entre 1999 e 2000, eu não tinha 10 anos. Estava com a mesma idade dos
jovens do ensino médio de hoje. Então, eu já era capaz de fazer minhas
avaliações.
Nesse período, o
ENEM acontecia apenas em cidades grandes, geralmente nas capitais dos Estados.
Não tinha livro didático gratuito no Ensino Médio. Quem quisesse deveria
comprar. Acesso à internet? Apenas discada e quem tinha eram pessoas de grandes
posses. Ingresso à faculdade? Bom esse era um grande desafio, pois as vagas
eram muito reduzidas. Além disso, os centros universitários ficavam muito
distantes. Escolas técnicas? Nunca ouvi falar... E acredite, no período que fiz
o Ensino Médio (1999-2000) aconteceram vários problemas no Brasil. A venda da
Petrobras entrou em discussão; havia inflação?, sim havia! Corrupção? Claro que
sim, mas somente alguns escândalos foram parar na capa da Veja. Se não
acredita, basta buscar no acervo digital. Mas não envolviam o presidente da
República! Envolvia sim!
Então, eis que
hoje (2014) encontro um jovem com seus 22 anos. Faz seu curso em Universidade
particular com sua bolsa integral de 100% pelo PROUNI. Falamos sobre política e
pergunto-lhe sobre suas pretensões. Esperava que ele fosse me responder que iria
votar na salvadora da pátria, no anjo da anunciação da boa e “nova” política
brasileira. Ele me disse que iria votar em Aécio. Até aí tudo bem. Afinal,
estamos em uma democracia. Então pedi que me explicasse o porquê da sua
aproximação ideológica com o referido candidato. Eis que escuto: - Marina Silva
é PT do mesmo jeito e a Dilma e o Lula acabaram com o país. Então eu pensei:
vivemos em países diferentes. Para seguir na discussão, porque esse ainda dava
para conversar, pedi que elencasse alguns motivos pelos quais considera o
governo federal um desastre: Eis a lista: Construção de um porto em Cuba; Caos
na saúde; Falta de segurança; inflação.
Então, procurei
explicar alguns itens. Retruquei que o porto foi um financiamento do BNDES para
uma empresa brasileira construí-lo com todos os trâmites exigidos em qualquer
operação financeira. O único problema foi o fato de ser em Cuba. Só por isso a
mídia repercutiu tanto esse assunto. Se fosse no Afeganistão talvez tivesse
repercutido menos. Sobre a saúde eu disse que ela está longe de ser ideal, mas
que além de ser uma responsabilidade compartilhada (sim, isso mesmos, o Brasil
é um ente federado!) temos grandes conquistas (não elenquei na hora, mas para
lembrar: SAMU, UPA’s, Mais Médicos, Brasil Sorridente, Farmácia Popular).
Acerca da falta de segurança eu argumentei que realmente é um grande problema,
mas que um bom modelo seria promover a integração entre os Estados e Municípios
e, consequentemente, entre as diferentes corporações policiais. Inclusive o
Governo Federal criou em agosto de 2014, a Coordenadoria
Integrada de Segurança Pública do Nordeste para combater ações criminosas
na região. Sobre a inflação eu lhe disse
que não sei avaliar, visto que não conheço os conceitos básicos da economia.
Então o jovem e inteligente rapaz me disse: - não é preciso saber disso para
reconhecer que há inflação. Basta ver os preços dos alimentos. Olha o preço do
tomate! Sobe todos os dias! Eu pensei antes de responder e disse-lhe: - Bom, se
você quer medir a inflação pelo preço do tomate vamos lá. Eu não entendo de
inflação, mas de tomate sim. Realmente há mais de um ano houve oscilações no
preço. Mas como eu compro toda semana e consumo todos os dias eu te digo uma
coisa: se o tomate é seu único parâmetro, não há inflação. Ele parou a
argumentação, mas continuou achando que estava certo, mesmo tendo pisado no
tomate.
Percebi então que
eu estava diante de uma pessoa que pensa ser muito crítica, mas que na verdade
repete um discurso, sem argumentos ou ainda sem compreensão dos fatos. Um jovem
que diz haver inflação, apenas porque ouviu dizer que o tomate, que seus pais
compram tem variações de preço. Se ele nem se dá ao trabalho de saber o que
está dizendo, imagine buscar compreender seu contexto de 10 anos atrás. Mas ele
decidirá o futuro dos próximos 4 anos. O que é preocupante!
Então, você que
está no laboratório da sua escola com acesso à banda larga compartilhando nas
redes sociais, fora Dilma!, PT não me representa! Você que está sentado na sua
cadeira comissionada da prefeitura porque pediu votos para o prefeito e quer
acabar com a corrupção. Você que está nos Estados Unidos como cidadão
brasileiro, participando do Ciência sem Fronteiras e achando que o Brasil não
presta. Você que estuda em uma escola técnica há 30km da sua casa e reclama que
está faltando uma cadeira. Você que ingressou pelo sistema de cotas e diz que a
Dilma não te representa. Você que está insatisfeito com o atraso das obras de
transposição do rio São Francisco, mas não sabe sequer os Estados que serão
beneficiados. Você que estuda em uma Universidade construída no governo do PT e
acha que ela está sucateada; Você que tem uma bolsa auxílio alimentação/moradia
e reclama que o valor é baixo; Você que recebe uma bolsa de mestrado/doutorado,
mas é contra o bolsa família; Você que conseguiu emprego nos últimos anos e
acha que o Brasil está mal: cuidado para
não pisar no tomate nessas eleições. Mas se ainda assim o fizer, saiba que
seu pé ficará sujo por 4 anos.
João
Paulo de Oliveira